terça-feira, agosto 22, 2006

Pré-História

















-Olhou à sua volta sem saber bem quanto tempo teria passado desde que chegara ali. Aliás, nem sequer sabia bem onde estava, onde era ”ali” ou como havia chegado lá. A paisagem era estranha, as plantas desconhecidas, as arvores só remotamente lembravam as que conhecia e nem sequer um edifício ou construção humana existia até onde a sua vista alcançava. Mais ao longe alguns cumes de montanhas apontavam um céu cinza-azulado e era de uma dessas montanhas que descia o regato de agua cristalina e pura que ali passava sem vestígios de poluição.
-Foi na precisa altura em que pensava ter visto paisagens como aquela em algum livro de história, que um ruído que ouvia lhe pareceu crescer; primeiro como um rumor e depois como um trovão que se aproximasse de si. Assustado, Álvaro cedeu ao mais básico dos instintos humanos e desatou a correr na direcção oposta àquela de onde o barulho, agora quase ensurdecedor, lhe parecia chegar. Corria desalmadamente, saltando pedras e escorregando em valados, mas ainda assim olhando por sobre o ombro para trás. Foi numa dessas olhadelas que quase não quis acreditar no que via, de inicio pareciam-lhe elefantes, mas com a aproximação teve a certeza de que o que corria na sua direcção eram mamutes. Entre a dúvida e o pasmo, sempre sem parar de correr, não viu a rocha enorme contra a qual chocou e que o fez perder os sentidos.
-Sentindo-se sacudido, recobrou a consciência lentamente como se desperta-se de um sonho estranho. Olhou para cima e três mulheres vestindo peles de animais, abeiravam-se dele com olhar curioso. Tinham os cabelos em total desalinho e pêlo no corpo todo. Lutando contra o corpo, que lhe doía, sentou-se e olhou em volta. Estava numa gruta parcamente iluminada por uma fogueira; ao fundo um grupo de pessoas desgrenhadas comia, não soube bem o quê, como comem os animais. Mais além corriam crianças semi-nuas, sujas e mal cheirosas. Aliás o odor era quase insuportável, uma mistura de môfo, podridão, suor e fezes quase disfarçava o odor da madeira queimada.
-Alguns dos seres que via seguravam clavas, mas pareciam partilhar tudo o resto. Reparou que todos os meios de produção como pedras e lanças eram de todos, que não havia noção de família e todos se entregavam a todos. Definitivamente, não existia nem lei nem estado que os regulasse ou lhes restringisse qualquer liberdade.
-Mais tarde, Álvaro apercebeu-se que não existiam classes sociais, nem trabalho definido, apenas a divisão dele. Por vezes caçavam, outras vezes recolhiam alimentos da natureza. No entanto, grande parte do seu tempo era despendido a procriar sem qualquer complexo freudiano.
-Passado algum tempo, três dos homens barbudos do grupo ao fundo da caverna, ergueram-se e foram na sua direcção. Afastaram com suaves pontapés as mulheres à sua volta, baixaram-se olhando-o de perto e sorriram com ar estranho. Pareceu-lhe reconhece-los e titubeantemente disse:

-Fidel, Carl, Friedrich?

Rui

1 comentário:

Luisa disse...

Qual deles seria? O Álvaro com certeza que os conhecia bem!!!!