sexta-feira, agosto 18, 2006

Como ser? Como se comportar? Como pensar? O que sentir?














Marxista ou Estóico? Café ou Descafeinado? Telejornal ou Telenovela? Electro-Rock ou Jazz? Berlim com ou sem muro? "Cem anos de Solidão" ou "O Alquimista"? Coca-Cola ou Pepsi? Ridley Scott ou Godard? “O Príncipe” de Maquiavel ou o “Príncipezinho” de Saint-Exupéry? Google ou Yahoo? Amelie Poulain ou Audrey Tautou? Gato Fedorento ou Camilo Castelo Branco? João Paulo II ou Stones ? Seinfeld ou Engels ? Canal História ou Flintstones? Jeunet ou Natalie Portman ? Ateísmo ou Ecstasy? Gótico ou Desconstrutivista? Liberdade anárquica ou Direito?


-Salvo raríssimas excepções, muito louváveis, o panorama cultural é extremamente boçal, e o espectáculo do possível e do improvável tão largo que apenas me resta fazer um sorrisinho amarelo, meio do canto da boca, e continuar andando. Isso, ou deixar que permaneça o meu maior ar de profundo tédio e depressão, enquanto tento não me interessar pelas causas de tal deserto de ideias. Essencialmente, continuar a viver, ou a sobreviver no meio desta “manada”, um dia penoso de cada vez.
-Telemóvel de ultima geração, máquina fotográfica digital de 200 milhões de pixeis, portátil de 250 gramas.
-Os livros que eu leio é que são bons, os filmes que vejo é que são inteligentes, os meus autores são mais cultos que os teus, a minha música é de melhores autores do que a tua.
-Como ser? Como se comportar? Como pensar? O que sentir?
-Usa-se e abusa-se de rótulos, de citações decoradas. É mais fácil ser ateu ou extremista do que ter uma ideologia, uma causa ou um credo. É pratico ser superficial e inócuo, passar ao lado e dizer que se passa por cima. Ser fútil e vão está na moda, ser assexuado e apolítico também.
-A humanidade é demasiado Kitsch, ser humano é “pindérico” e dizer pindérico é kitsch.
-Ninguém quer sentir terra nos pés nem que seja a dançar na terra molhada. Queremos “Nike” e “Reebock”. Queremos cafeína e “Prozac”. Queremos “Prada” e chinelos de praia. Queremos Estados Unidos quando convém e União Soviética quando dá jeito.
-Queremos depilação e implantes capilares. Tabaco e “fitness”. Álcool e comida vegetariana. Piercing’s, tatuagens e brancura. Neve e praia. Artesanato e “ready made”. Pacifistas e lutadores. Narcisistas e marxistas. Queremos ser Aristóteles e Einstein no mesmo corpo de um gladiador com a habilidade de Monet. Falamos da modernidade e somos voyeurs de concursos. Usamos o MSN e ficamos em silêncio com os amigos. Somos o pop de oitenta com a saudade do disco de setenta e do rock’n roll dos sessenta. Somos as nossas próprias imagens que tiramos com máquinas electrónicas e as velhas fotos dos honrados e desbotados antepassados. Somos revolucionários bêbados e afogados de liberdade capitalista. Reaccionários na vanguarda de belas causas a que assistimos em directo pela televisão. Somos “cult”. Somos tristes cópias do que queremos ser e do que acreditamos que somos, e entretanto, fugimos de nós em nome de nada, fugindo e deixando que fujam de nós para que depois tenhamos de que falar e o que lamentar.
-Um dia quando for demasiado tarde.

Rui

Nota: Apesar do tempo tristonho e fechado, hoje foi uma boa tarde!

3 comentários:

Luisa disse...

Pois eu vou deixando-me ser como sou sem seguir modas. Gosto dum bom romance que conte uma bonita história, gosto de Camões, gosto de filmes românticos, gosto de fado, sou crente, ainda acredito no amor, enfim, se é preciso pôr um rótulo, sou antiquada...

Maçã de Junho disse...

Gostei da reflexão!Ás vezes é preciso gritar, ouvir o eco e esperar para ver por onde vamos!
Bom fim de semana!
Maçã de Junho

teresa disse...

Eu, que sou adicta de tlms de última geração e de gadgets de uma maneira geral (só para dar um exemplo), apesar de me identificar com grande parte da tua crítica social, ou então talvez por causa disso, acho este texto sublime! Parabéns Rui por, mais uma vez, nos brindares com as tuas magníficas palavras.