terça-feira, maio 30, 2006

FUTEBOL E AMOR (Reedição Acrescentada)

























-
O Primeiro texto é uma reedição de um aqui colocado a 15/10 de 2006; O segundo é de um amigo que se assina Yur Adelev.
Achei que ambos se completariam.

O mundo é redondo e o futebol é a maior prova disso.

-O futebol é uma repetição de todos os reflexos sociais. Tem regras, restrições, perícias, penalidades, artigos, relevância e impertinência. Mas sobretudo tem o acaso. Tem superstição, religião e paixão…muita paixão. Tem corpo e por tudo isto tem alma.

-O futebol é violento como a vida e tem abusos como ela. Duro como a existência e sóbrio como a maior das bebedeiras.

-É diferente nas semelhanças com a religião e semelhante a ela nas diferenças. Ou se crê ou não, ou se ama ou se odeia; Tudo o resto são excepções raras e tudo é permitido em simultâneo. Nele as crises de fé são rápidas, duram o espaço de uma jornada ou o “defeso” de uma época.

-Ao contrário do que se diz por aí, não se joga pensando, joga-se apenas com a alma e com o corpo todo ainda que não seja permitido, depois pensa-se. Isto é: primeiro chuta-se como e quando se pode na altura e à posteriori explica-se o que se fez, se pode explicar ou inventam-se razões ou então não se explica sequer.

-O futebol não é bonito, é lindo se se gosta dele e se a equipa ganha ou trágico se a equipa perde. Arranca euforias e horrores durante o mesmo minuto. Mata-se por ele (tristemente) e morre-se por ele mas sobretudo sofre-se por ele. É catártico e sublime ou aberrante e desprezível.

-Ninguém gosta de futebol apenas. Futebol não se conversa, discute-se. Escreve-se, descreve-se, analisa-se, vê-se e revê-se vezes sem fim em todos os ângulos inversos e reversos e nunca se apura nada.

-Não é desporto, é tudo para quem tem pouco ou nada e algo mais para quem já tem tudo.

-É belo ouvir de alguém que o detesta e não o entende por opção própria, que deseja que a nossa equipa vença, apenas por nós.

-È uma bela declaração de amor.


Rui

Se fosse eu o seleccionador fazia de ti a minha selecção.
Jogaríamos em todos os campos 9000 minutos regulamentares,
sem outra falta que não fosse a que me fazes
e haveriam prolongamentos dos dias mais felizes.
Só tu e eu num estádio cheio de alma,
correríamos de mão dada atrás da bola que é o mundo,
e os bons encontros durariam para sempre.
Os cartões, teriam todas as côres
e neles, desenhos de gerbéras e outras flores de que gostes.
A relva teria grilos, que cantariam de noite e de dia,
e as únicas fintas seriam aquelas que a vida nos faria.
Nas balizas, as redes estariam penduradas entre os postes,
para que descansássemos nelas das quedas dos dias maus.
Á noite, dos holofotes do estádio brilharia a lua cheia.
E o público, calado, aplaudiria a vitória alheia.


Yur Adelev

sexta-feira, maio 26, 2006

Narciso?










-Quando passei a fazer parte da rotina diária da minha família, pensaram chamar-me Marcelo, mas ou porque já na altura existia um, ou por terem mudado de ideias acabaram por me nomear Rui.

Ruis existem em qualquer lugar, andam por todo o lado estão em todo o lado. São muitos, são diferentes; Têm alturas, profissões, pensamentos e gostos diferentes, mas todos têm uma coisa em comum: todos se chamam Rui.
-Tenho praticamente a certeza de que não existe uma cidade, vila ou aldeia, escola, escritório ou oficina onde não viva ou trabalhe alguém chamado Rui. Ao contrário do que acontece com os Josés, com os Manueis, com os Joãos e com os Pedros, os Ruis são apenas portugueses; Não conheço outra língua em que o nome exista com esta grafia. Em língua inglesa existe o Ray, e na francesa o Ruy, mas uma e outra apenas se aproximam em número de letras e no som inicial, o que são vagas e longínquas semelhanças.
-Sei também que em russo existe uma palavra cuja grafia desconheço mas cujo som equivale ao do nome Rui. O significado não o escrevo, por se tratar do mais forte “palavrão” português e também russo,... aquele que nas terras mais a norte, é usado como se de um ponto final se tratasse.
-No entanto sei que existem Marias Rui, o que não faz delas outra coisa que não Ruis femininos.
-Não faço qualquer ideia, nem sequer aproximada de quantos Ruis existem, nem qual a sua distribuição geográfica; A única vez que tive a ideia de saber qual a sua densidade, fui a uma mesa de café com cinco amigos, dos quais quatro se chamam Rui. Assim, por conclusão ficou-me que ali, cinco em cada seis portugueses se chamavam Rui. Mas nós abemos o que as estatísticas significam quando são assim elaboradas.
-Por vezes surgem-me ideias de criar um lobby, ou um clube apenas, de e com pessoas chamadas Rui. Seria apenas mais um lobby ou clube?
-Será que o nome que usamos toda uma vida, tem algo que ver como o modo como somos ou com tudo aquilo que nos acontece?

-Quanto à sua origem conheço esta versão:

-Rui é a forma reduzida do nome Rodrigo [que vem do germânico hrod, «glorioso» "roda", glória, e "ric", poderoso]. A sua forma antiga era "Roi" ou "Roy".

In Nomes Próprios, de Ana Belo (Arteplural, Lisboa) e Dicionário de Nomes Próprios, de Orlando Neves (Circulo de Leitores).


Nota: Apesar de a ilustração ser a imagem de um Narciso, a ideia é apenas contrariar o que quer que alguém possa pensar acerca do tema e conteúdo deste post! Além de que o narciso é uma bela flor.

Rui

quarta-feira, maio 24, 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

PUZZLES
















Tenho 42 anos. Não sou nem velho nem novo sou ambos ao mesmo tempo e regra geral sou novo demais e demasiado velho quando quero ser o contrário.
Quarenta e dois anos é diferente de ter quarenta e um ou quarenta e três, embora seja sempre eu independentemente da idade que tiver. Mas por vezes não sei bem o que é exactamente isso de ser eu.
Envelhecer é das poucas certezas que possuo. De todas as realidades é das mais democráticas e inexoráveis.
Antigamente, pensava que quando atingisse esta zona da vida em que estou ,seria mais capaz, mais envolvido na vida, mais sabedor e experiente. Mas tudo o que até agora aprendi resume-se a saber que não aprendi nem o suficiente nem aquilo que queria aprender e que está muito bem assim.
A vida não é um puzzle à espera de ser construído peça a peça mas sim as cores com que o puzzle se pinta. Não será um puzzle coloridíssimo mas é colorido e vivo; Não é preciso nem exacto mas é perfeito.
Há na vida pelo menos uma justeza, a que se revela naqueles de quem gostamos, nos momentos felizes, na beleza e na passagem das estações. Gosto da vida mas não me entendam erradamente. O mundo está cheio de desgraças e de lágrimas e o meu mundo também. Limito-me a tentar acreditar apenas, que algo melhor há-de existir um dia e que me irá surpreender como antes já aconteceu, mas por outro lado, duvido prufundamente e até acho totalmente in-provavel

Não sei bem porque pensei nisto. Talvez apenas porque há coisas em que me é muito doloroso pensar.

Rui

quinta-feira, maio 18, 2006

COW PRIDE / COW PARADE ?




















Confesso que existem coisas cuja aparente inutilidade me diverte!

Rui

quarta-feira, maio 17, 2006

À espera de Godot












-Ontem, veio-me parar ás mãos um livro de Samuel Beckett com uma peça de que gosto e que já varias vezes vi: “À espera de Godot”. Ao folheá-lo, ocorreu-me esta questão: “como seria a mesma peça, se Beckett vivesse na era do telemóvel?”

Eis o que penso ser a resposta:


Primeiro Acto:

Estragon: Quem era?
Vladimir: Godot. Ele não pode vir, e que tal se fossemos a um restaurante chinês?
Estragon: Boa idea.

Vladimir & Estragon saem do palco pela esquerda.

Fim


Rui

terça-feira, maio 16, 2006

FOCAR









É preciso reviver o sonho e a certeza de que tudo vai mudar.
É necessário abrir os olhos e perceber
que as coisas boas estão dentro de nós,
onde os sentimentos não precisam de
motivos nem os desejos de razão.
(É preciso saber focar a verdade que existe
nos sentimentos reais e belos que temos
ignorar os medos e receios e agarrar a vida.)*
O importante é aproveitar o momento
e apreender sua duração,
pois a vida está nos olhos
de quem sabe ver.


(Gabriel Garcia Márques)

* Paragrafo introduzido.

Rui


domingo, maio 14, 2006

É O MARKETING ESTÚPIDOS!












-Todos os caminhos vão dar a algures. Das mais diversas paragens, das mais longínquas proveniências, dos mais recônditos lugares, usando os mais variados meios de transporte, todos se dirigem ao lugar marcado.
-Tudo leva a crer que o acontecimento irá concitar a atenção dos mais destacados especialistas, dos mais atentos observadores, comentadores e de todos os órgãos de informação.
-Parece chegado finalmente o grande momento.
-A população concentrada no exterior, mantêm um silêncio expectante enquanto lança confeti e outros impropérios.
-Os convidados continuam a chegara bom ritmo, uns aos pares, outros aos impares; Uns envergando traje de cerimonia e outros bem vestidos.

-A conferência de imprensa tão amplamente anunciada e que tanta expectativa tem vindo a criar parece estar prestes a ter inicio. Um a um, entram os membros do governo por ordem de importância: o primeiro-ministro à frente, depois os ministros, a seguir os secretários de estado, os secretários de estado, os sub-secretários de estado, os chefes de gabinete, os assessores, os sobrinhos, os afilhados, os amigos e por fim o pessoal de secretariado. Todos ocuparam os seus lugares, ladeando o chefe do governo. Todos os olhares se concentram agora no primeiro-ministro que retira do bolso as notas da sua importante comunicação. Faz-se total silêncio, vamos ouvir.

-Portugueses, minhas senhoras, meus senhores, senhores ministros e restantes membros do governo, senhores jornalistas, distinto público.
-O anúncio que aqui me traz e simples e resumi-lo-ei como é meu habito. É o seguinte:
-É o marketing governamental, estúpidos!

Rui

sábado, maio 13, 2006

Comboio In-Provavel










-Quando subires para o comboio, escolhe um lugar no centro da carruagem e junto à janela. São esses os lugares onde se é menos incomodado.
-Sim senhor! – Respondeu o rapaz baixando a cabeça respeitosamente.
-Quando o comboio começar a andar, pode aparecer alguém a tentar vender-te alguma coisa. Não compres nada, não lhe ligues, não respondas sequer. De certeza que é alguém prontinho para te burlar, um vigarista.
-Sim senhor, não lhe ligo sequer!
-Se alguém te oferecer um cigarro, não aceites; Os cigarros têm droga. Entendeste?
-Sim senhor, entendi!
-Se te aparecer alguma rapariga nova e bonita a querer meter conversa contigo, abafa o teu primeiro impulso e sem seres mal-educado, corta logo ali o diálogo. Essa rapariga há-de ser uma aventureira.
-Uma quê?
-Uma desavergonhada! Ouviste?
-Sim senhor, ouvi e entendi! Não lhe darei troco à conversa!
-Se por acaso alguém te convidar para jogares cartas, não jogues; Os comboios estão cheios de vigaristas que te fazem perder tudo o que tens e nem sequer saberás como.
-Sim senhor! Não me hei-de esquecer.

-O jovem subiu para o comboio e entrando na carruagem, atravessou-a até ao fundo, colocou os sacos no estrado sobre os bancos e sentou-se num lugar junto à coxia.
-Quando o comboio se pôs em movimento, entrou um homem enorme e de aspecto simpático que vendia artesanato africano. Chamou-o com um gesto e escolheu um pequeno elefante negro com as presas em marfim.
-Retirou do bolso do casaco um maço de cigarros e acendeu um, devagar. Fumo-o com evidente prazer, muito embora soubesse que ali não era permitido fumar. Foi então que viu sentada quase no centro da carruagem uma rapariga que lia. Levantou-se, dirigiu-se até ela e pedindo licença para se sentar ofereceu-lhe o pequeno elefante. Pouco tempo depois falavam animadamente como se se tivessem conhecido muito tempo antes. Jogaram às cartas e riram-se durante quase toda a viagem.

-Dois anos mais tarde, casaram e convidaram os avós de ambos, que vieram de comboio ao casamento.


Rui

sexta-feira, maio 12, 2006

EMBIRRAÇÕES IV




















CALIMÉRO II
-Niguém gosta de mim...
-Fui vítima de injustiça...
-Havia um
complot...

(Entrevista de Manuel Maria Carrilho à RTP 1, dia 12 de Maio de 2006)


quarta-feira, maio 10, 2006

LIVRA... RIA!







-
Confesso que tenho uma secreta paixão por livrarias. E embora a não a exerça com a regularidade que gostaria, ela está em mim e eu nela sempre que a ambos é possível estarmos juntos.
-Quando estou numa livraria a desfolhar mil livros que não tenciono comprar tenho, nesses momentos únicos, a impressão que ainda resta no mundo alguém que sabe pensar.
-Gosto das cores das lombadas dispostas anarquicamente, e bem dispostas habitualmente. Gosto do cheiro a papel e a tinta e sobretudo gosto do quase solene silêncio que lá existe; Este, não é o silêncio mal disposto, obrigatório, pesado e opressivo das bibliotecas, mas um silêncio respeitoso e auto imposto, como o som da concentração do atleta antes de iniciar a corrida contra a fasquia que deveria ultrapassar.
-Adoro percorrer as secções temáticas e já me tem acontecido encontrar na secção de arte, excelentes obras acerca de reciclagem de resíduos sólidos ou na de auto-biografias, fantásticas obras de ficção. Mas sobretudo sempre me impressionou a divisão da totalidade dos livros em dois grandes grupos: ficção e não ficção. É como se me quisessem dizer que uns são verdadeiros e outros apenas uma data de patranhas que no entanto eu devo ler, pagando para isso a pequena fortuna que os livros por cá vão custando.

-Ainda recordo com alguma saudável saudade, outro tempo não muito distante, em que era possível fazer perguntas aos empregados das livrarias e obter respostas concretas, rápidas e acertadas sem que tivessem de consultar com ar sério um terminal de computador. Nessas alturas, franzem o sobrolho como se soubessem a resposta e apenas não se recordassem bem dela, consultam a base de dados e concluem quase invariavelmente, que o autor cujo livro nós procuramos não existe, ou que naquela livraria não existe nada, que ele a ter existido, tivesse escrito; O que parece dar no mesmo a julgar pela expressão de estranheza e desdém com que nos olha. È mais ou menos assim: “Hum…, desculpe mas OZ, só se for O feiticeiro de OZ. Esse tal Amos Oz não existe!”. Está encerrada a questão, e assim Amos Oz (pseudónimo de Amos Klausner), um dos mais importantes e mais traduzidos autores em língua hebraica, deixa pura e simplesmente de existir num ápice, desaparecendo com ele toda a sua obra.

Rui

segunda-feira, maio 08, 2006

Breve historia do Erotismo















-Os povos da antiguidade não conheciam a diferença entre erotismo e pornografia e não se importavam nada com o facto.
-Para este texto deparei-me com grandes dificuldades, pois a escassez de obras de consulta é enorme já que a “Penthouse” não era vendida em Roma, a “Playboy” não era editada no Egipto, a “Lui” não se publicava na Grécia e os persas apenas liam a “Nova Gente”. No entanto, a conclusão mais evidente a que cheguei foi a de que estes povos apreciavam tudo aquilo que neste capitulo a humanidade actual aprecia sem qualquer distinção ou preocupação de distinguir entre: sexo, pornografia e erotismo.

Algumas questões prementes:
-O nariz de Cleópatra, era sexy, erótico, ou pornográfico?
-Os Hunos, combatiam semi-nus por facilitismo, naturismo ou exibicionismo?
-Os gregos, acreditavam mesmo na mitologia, ou criavam as lendas para disfarçar algumas facadazinhas que davam e atirar a culpa para os deuses e deusas?
-As múmias, exerceriam algum grau de atracção sexual sobre os egípcios?
-As pirâmides eram símbolos fálicos?
-Na Pérsia, a barba cerrada em cachinhos tinha algum poder de atracção?

-Todos sabemos que os gregos eram uns tipos liberais à brava; Eros era grego, Afrodite também, Apolo e aqueles sacanas que nos levaram o Campeonato Europeu de Futebol também eram. Em Atenas periodicamente, jovens de todos os sexos, pelo menos de quatro deles, juntavam-se para a prática de jogos que fariam corar Zeus se ele tivesse realmente existido.
-Os romanos, herdaram dos gregos alguma da sua liberalidade e dos lusitanos a restante que lhes haveria de permitir que inventassem as orgias de todos os dias e os semanais bacanais.
-Os egípcios não nos deixaram grandes testemunhos. Eram um povo estranho que tinha má caligrafia e andava sempre de lado, mas apesar de tudo sabemos hoje que não existe qualquer registo de que tenham existido múmias semi-nuas.
-Os hunos, sabemos terem sido um povo muito fértil pois as hunas não tinham filhos mas sim hordas deles, que arrasavam tudo por onde passavam.

-Talvez aqui volte ao assunto para falar da idade média, que como todos sabem, é a idade em que a humanidade ainda não tinha idade para fazer algumas coisas e já não tinha idade para fazer outras. Por isso e por não existir ainda electricidade, há quem lhe chame a idade das trevas, embora eu não concorde de modo algum, pois como já referi, os casais nem tinham luz para apagar.


Rui

quinta-feira, maio 04, 2006

terça-feira, maio 02, 2006

sábado, abril 29, 2006

Tempus Fugit














Nasceu ao soar da primeira badalada do relógio da torre.

Disse papá e mamã quando se ouviu a segunda.

À terceira badalada, escreveu o seu primeiro poema.

Quando a quarta se ouviu, teve a primeira paixão carnal.

Quando a quinta badalada tocou, entrou na universidade.

Ao sexto toque do relógio, terminou o doutoramento.

Ao sétimo toque, casou próspero e feliz.

Tornou-se célebre, rico e famoso quando soou a oitava badalada.

Ao som da nona, foi conhecer o neto a Paris.

Ao toque da décima, jubilou-se.

Quando soava a décima primeira badalada do relógio da torre, morria feliz rodeado da numerosa família.

À décima segunda toda a gente o tinha esquecido.

Rui

quarta-feira, abril 26, 2006

Diálogos IX



























-Queres vir comigo?

-Onde, quando, para quê, porquê?
-...E se eu apenas te amar?

Yur Adelev in "Frases Soltas"

Rui

domingo, abril 23, 2006

Eu sou um palhaço!













-Tenho oitenta e três anos, uma reforma vergonhosa, filhos e netos que só vejo no Natal, contas que não posso pagar e uma vida inteira de trabalho. Outros que têm a minha idade entram em sentido contrário em auto-estradas porque elas são confusas. Eu sou mesmo um palhaço!

-Vivo num país em que quem tem dinheiro foge à Justiça para o Brasil, regressa em liberdade e é eleita Presidente de Câmara. Logo: …sou um palhaço!

-Tenho um primeiro-ministro que faz férias na neve e safaris em Africa. Antes e depois congela aumentos e progressões de carreira que eu mereço e pelas quais trabalhei sempre; Obriga-me a trabalhar mais anos para que me reforme, nomeia amigos e os amigos nomeiam outros amigos e ainda tem a lata de me pedir sacrifícios e de me falar da crise. Sim, a mim fala-me de crise, …porque eu sou um palhaço!

-Estou no meu carrinho para ir para o emprego a ouvir falar de crise em todas as notícias e quando olho para o lado, vejo um rapaz de 22 anos num Mercedes que eu nunca poderia sequer sonhar ter. Ele ou o pai dele são culpados de algo muito grave com certeza, e eu? Eu sou um palhaço!

-Um careca com um excelente implante de cabelo, desgraça uma câmara municipal do norte do meu país, é nomeado ministro, deixa de o ser, perde eleições, aguarda um pouco enquanto se passeia de jipe Mercedes com, …imagine-se, MOTORISTA; É depois nomeado administrador da GALP. Bolas, ele pode ser careca mas eu sou um palhaço!

-Tenho vinte e poucos anos passados a estudar à custa do esforço e sacrifício dos meus pais. Tenho um curso superior e vontade de trabalhar. Tenho amigos que trabalham em instituições governamentais apenas porque os tios são aí directores. Sou actualmente ajudante de peixaria de uma grande superfície. Ainda bem que a minha licenciatura era Biologia Marinha. Sim ainda bem, para saber que sou um verdadeiro palhaço.

-Tenho 47 anos e trabalhei desde os 14 na mesma fábrica onde o meu pai e o meu avô trabalharam sempre. A empresa encerrou deixando por pagar 18 meses de ordenados e 115 pessoas no desemprego. O Proprietário mantém as suas casas em Lisboa, Algarve, Ibiza e Brasil, bem como a quinta no Douro, um barco em Vila Moura e todos os automóveis que possuía. Eu… mantenho a família viva à custa da arte de sapateiro, mantenho alguma dignidade e pouca esperança no futuro dos meus. Mantenho também a certeza de ter sido toda a vida um verdadeiro palhaço, triste mas ainda assim palhaço.

-Sou professor, cometi o “erro” de desejar ter uma família como toda a gente. Estive sempre nos primeiros 18 anos de carreira a mais de 80 quilómetros dela. Quando menos recebia tinha que pagar duas casas, gasolina, portagens, e cheguei quase a passar fome. Perdi uma boa parte do crescimento dos meus filhos enquanto adorava ensinar os filhos dos outros; Esforcei-me sempre o mais que pude sem ter muitas vezes os meios que necessitava, para os alunos e por eles. Fui insultado, tentaram agredir-me, riscaram-me o carro, não me aumentam e exigem-me que trabalhe nas escola e o volte a fazer quando chego a casa. No entanto ainda gosto do que faço, mas parece que nem pais, alunos ou ministras o entendem. Tudo isso apenas porque é por vezes difícil entender um palhaço e eu… sou apenas mais um palhaço!


NOTA:“Nenhuma das situações aqui relatadas reflecte qualquer situação real que o autor verdadeiramente conheça. Trata-se unicamente de situações imaginárias e ficcionadas e como tal impossíveis de existirem na vida real.”

Depois de feito tal esclarecimento também eu afirmo que sou um palhaço, embora nutra enorme respeito e estima por todos aqueles que o são profissionalmente.

Rui

sábado, abril 08, 2006

sexta-feira, abril 07, 2006

Confissões de um Indeciso












-Sempre, ou quase sempre, pensei em mim como uma pessoa hesitante. Quer dizer, hesitante e por vezes com dúvidas. Mas apesar disso nunca entendi muito bem o que são as certezas e talvez por isso tenha tantas dúvidas e hesitações. “Na realidade, não tenho a certeza de nada o que não significa que duvide de tudo”, acho que li esta frase em qualquer lado mas não tenho bem a certeza onde.
-Quando se decide algo, é um acto definitivo, está decidido, resolvido, encerrado e já não há nada a fazer excepto claro, se mudarmos de ideias e decidirmos o contrário do que decidira-mos antes. A isto também se chama hesitar, embora eu, quer por hábito quer por vício, não goste de chamar ás coisas nomes definitivos de que, quem sabe, me possa vir a arrepender mais tarde ou mais cedo. Peso e repeso sempre tudo antes de tentar tomar uma decisão, até me peso a mim várias vezes por dia por não estar bem certo se devo emagrecer, ou se pelo contrário devo ganhar mais algum peso. Penso todas as coisas repetidamente e depois deixo que alguém ou a providência, decida por mim. É mais prático e evita que volte a pensar de novo tudo o que pensei antes, embora ainda não esteja convencido que este seja o melhor modo de proceder.
-Apesar de tudo considero, na maior parte das vezes, as decisões como coisas muito importantes e isto, talvez seja o que me complica o acto de decidir; Por outro lado talvez o simplifique, porque se afinal não decido nada, é porque não tenho nada que decidir o que quer que seja.
-Sou, como já me chamaram, “um viciado em alternativas”, até nas tauromáquicas que na realidade é a tomada da decisão de ir para os cornos do touro e não deve ser nada fácil de tomar.
-Deixo portanto tudo à sorte, à sorte ou ao azar e mando à fava as decisões; Outras vezes no entanto, faço exactamente o contrário ou nem chego a fazer nada. Porque uma pessoa que não hesite é uma pessoa decidida e eu decidi ser hesitante. Disto tenho eu a mais absoluta das certezas… ou talvez não.

Rui

quarta-feira, abril 05, 2006

Diálogos VIII























-Desculpe… podia fazer-me um favor?
-Com certeza. Aguarde só um momento.

Dois momentos depois.

-Ora cá está o seu favorzinho e acabadinho de fazer.
-Mas, este é redondo…
-Neste momento só temos material para fazer este tipo de favor, lamento.

Rui

terça-feira, abril 04, 2006

In-Provavel Abril












-Abril é o Mês da Primavera, dos passarinhos, dos dias mais longos após o Inverno chuvoso.
-Regressam as andorinhas e as primeiras borboletas, abrem as flores, nascem os primeiros frutos e bagas.
-Abril é mês de comemorar uma revolução de que muita gente já se não recorda e mês de dias mais amenos.
-Abril começa com o dia dos enganos como todos os dias em todos os anos.
-Abril é nome de música, de gente, de mês, de esperança, de renascimento, Páscoa e ressurreição.
-Abril é o mês de todas as Camélias na minha cidade.
-Abril é o mês do Carneiro e do Touro.
-Abril do dia de S. Leónidas que é o meu dia.
-Abril é o meu mês.

Mas por vezes, …neva em Abril.


Prince:

"Sometimes it snows in april
Sometimes I feel so bad, so bad
Sometimes I wish that life was never ending,
But all good things, they say, never last

All good things that say, never last
And love, it isn’t love until it’s past."

Rui

segunda-feira, abril 03, 2006

Metade do número da besta





















Já nos tinham tirado as medidas, agora eis que nos são dadas de volta.

Rui

quinta-feira, março 30, 2006

IN-Provavel / IN-TOLERÁVEL ????














"PARA MEIO ENTENDEDOR, UMA PALAVRA BASTA!"

Rui

sexta-feira, março 24, 2006

Julgamento Final

















“Este pode muito bem ter sido o Julgamento final!”

-Foi com esta declaração prestada em absoluto exclusivo ao nosso repórter no local, que Santo Moura encerrou ontem a sessão do Supremo Tribunal Celestial.
-O Julgamento não parecia possuir à partida a importância que com esta afirmação pode vir a assumir. Em julgamento estavam apenas três diabretes: um administrador de uma empresa pública recentemente nomeado, um politico em travessia do deserto que foi nomeado administrador de uma empresa pública e um ex-ministro da economia e das finanças actualmente responsável por uma empresa de energia espanhola. Os arguidos foram condenados em penas leves, pois como se sabe, Deus é misericordioso e a clemência divina sempre é melhor do que a impunidade humana. O primeiro foi condenado a substituir o burro no presépio no próximo Natal; O segundo a fazer uma lista de todas as medidas idiotas tomadas no sector do ensino em Portugal desde 1974. O terceiro e último foi condenado a copiar com notas explicativas todos os discursos de Jorge Sampaio durante ambos os seus mandatos.
-Santo Moura, que exerce o cargo desde há mil anos, declarou na ocasião sentir-se cansado de tanto inquérito e que a idade já o não ajuda a conservar em sua posse todas as informações, como fazia noutros séculos. Não se prevê ainda quem será o substituto mas a decisão parece indicar que se tratou do julgamento final de Santo Moura.
-Aguardemos então.

Rui

quinta-feira, março 23, 2006

Jornal In-Provavel

























Nota: Para lêr melhor clicar sobre a imagem.


Rui

quarta-feira, março 22, 2006

Prima Vera










-Segundo o calendário gregoriano, a Primavera chega por volta do dia 21 de Março como é habitual. Trata-se da estação das flores, dos passarinhos chilreantes e, no caso deste ano, dos passarinhos com gripe aviária. É tempo dos verdes prados cobertos de erva e formigas. É tempo dos raios solares ficarem quentes e mais amarelos, ainda que como se sabe, demorem oito minutos a atingir a terra que, ao contrário da EDP, não possui luz própria por ser um planeta.

Rui

sábado, março 18, 2006

quinta-feira, março 16, 2006

Contraponto & Fuga












-Desde há vários anos desenvolvi uma técnica para me esquivar de quem não estou disposto a “aturar”. Faço-me sonso, faço-me surdo, insosso, distraído e ignorante ao que me dizem; Não estou atento, não reparo em nada, não vejo se é homem ou mulher, oiço mal ou nem oiço sequer quando não quero ouvir nem ver.
-Se me falam, respondo sem parar de andar, se me acenam finjo acenar e se me estendem a mau para um cumprimento suado, cumprimento, mas passo rapidamente ao lado. Se me querem dar um beijo educado, paro um curto momento, beijo longe da face e retomo o andamento.

Rui

domingo, março 12, 2006

Cuidado com os idos de Março












-Há meses assim.

-Para algumas pessoas são dias da semana juntamente com determinados números, para outras são alguns objectos partidos ou inteiros, locais, animais, atitudes e até mesmo outras pessoas. Para mim é este mês que decorre. Para mim é Março. Não sei como nasceu esta malapata, este “azar”, esta aversão por um dos doze meses; Ou melhor, sei, sei mas não digo, não quero falar disso e nem sequer pensar em tal coisa. O que é realmente um facto, é que o mês de Março se me distingue no duodécimo calendário, por ser um mês, quase sempre, declaradamente mau, raramente sofrível e quase nunca indiferente.

-César (o Júlio), teve pelo menos um adivinho que o alertou para os idos de Março e para os perigos que este fim de mês lhe traria. Não o escutou, talvez não fosse, como eu não sou, supersticioso, mas acabou por ser assassinado pelos seus amigos mais fiéis e até mesmo pelo seu filho adoptivo Brutus. A mim, cai-me apenas em cima a cada terceiro mês, muito daquilo que não desejava e que talvez não merecesse. Se acreditasse nos astros, culparia a sua conjunção nesta altura do ano; Se acreditasse nas coincidências, não culparia nada. Assim resta-me apenas culpar-me a mim, talvez por existir ou culpar o Março e esperar que passe depressa pois que os seus efeitos, dificilmente passarão.

-Mais uma vez o Março me foi aziago.

Rui


Nota: A ilustração não pretende exprimir nada, excepto a irritação profunda que este personagem me provoca. Poderia ser uma EMBIRRAÇÃO mas é In-Provavel.

sexta-feira, março 10, 2006

EMBIRRAÇÕES III













Cara Ministra:

-Somos um grupo de alunos de uma escola portuguesa que fica perto das nossas casas e que não está nada contente com esta coisa das substituições que tu andas a fazer. E que por isso decidiu escrever-te esta carta para que a leias e a guardes.
-Então é assim: O pessoal não está a ver bem qual é a tua ideia, se é que tens alguma, com esta cena das substituições. O que a gente a ver é que nos tás a lixar com uma limpeza do caneco. A escola agora parece uma prisão e nem tempo dá p’ra respirar. Os setôres vão para lá fazer um frete do caneco e tem tanta culpa como nós, de que queiras apresentar trabalho à sua custa para ficares bem na fotografia. Antes távamos sempre à espera de um “furo” para descansar a mona e curtir um bocado, mas assim já não é possível. Já não dá para interagir socialmente no recreio ou nos cafés da zona; não dá para jogar umas bilharadas ou trocar uns jogos e SMS’s. O meu Cóta, por exemplo, foi campeão de bilhar e aprendeu nos buracos das aulas a jogar e também conheceu assim a minha velha. Como queres depois que saibamos coisas acerca de sexo se não temos tempo para trocar umas ideias com os amigos? Mas se calhar somos nós que estamos mal informados, ? Depois podes fazer mais uma daquelas campanhas e mandar lá alguém a falar, que a gente finge que está interessado.
-Mas prontos, as substituições até podia ser se os pogramas fossem fixes, menos quadrados e mais modernos; Por isso cá vão umas sugestões. É assim: O Inglês por exemplo e o francês, são muita complicados. Isto de ter que entender como esses gajos pensam não interessa nada. Bastavam umas frases fixólas para o pessoal pedir uns cigarros ou cervejas, comer umas coisas numa pizzaria, entender os pogramas do PC e dar umas voltas. O resto não serve para népias.
-A matemática também está mesmo caducada! Tira os integrais, os numerais, os cardinais, as raízes quadradas, as equações de segundo grau, os conjuntos e já agora a trigonometria toda, menos os cenos, os escalenos e o “pi”, que isso é curtido de dizer e dá para fazer trocadilhos. Podes deixar a tabuada que a gente nem se importa se tiver calculadora. Aliás nem é bom que o pessoal saiba fazer bem contas, senão, já viste como ia ser na apresentação do orçamento de estado? Íamos topar logo as borradas todas.
-No português só lemos secas de gente já morta e quase nunca há figuras. Depois, aquilo da gramática é impossível de gramar. Que coisa, se nós nascemos em Portugal, é porque sabemos falar português; Deixa isso para os russos e ucranianos que não dizem nada que jeito tenha mas são curtidos à brava.
-Quanto à história nem dá bem para falar! Então tanto barulho por causa do Presidente da República e depois passam a vida a falar de reis? Não tem nada a ver…
-Bem vamos ficar por aqui para não te aborrecer muito que ar de enfastiada já tu tens. Porque se fossemos às Biologias, Físicas, ui, ui, ui.
-Mas a Geografia podes deixar, é sempre fixe saber que os Açores são Portugal e saber que tu não sabias.
-Vê lá se te lembras do que te dizemos, que mais dia, menos dia, as eleições estão aí e o pessoal já vai votar. E o teu emprego apesar de tudo até é fixe, não sei se s a ver a cena?

Prontos, fica bem!

quarta-feira, março 08, 2006

Mulher













-Ora bem, nada melhor do que o dia de hoje para fazer esta confissão: Gosto de mulheres!
-Gosto delas em particular e em geral. Aliás é um hábito que me vem de tenra idade. Comecei por gostar da minha mãe, logo a seguir da minha avó e depois fui gostando de muitas das mulheres que me entraram na vida e que nela, mais ou menos, permaneceram. Gostei das minhas professoras, das minhas colegas de estudos e gostei sobretudo de todas as que foram e algumas são ainda, minhas sinceras amigas.
-Não achei nunca que as mulheres sejam seres especiais, sobredotados de algum modo ou menos capazes do que quer que seja. Não são também com certeza, mais sensíveis ou mais frias do que são os homens. Não têm manhas, técnicas, tácticas, pensamentos, atitudes ou argumentações diferentes das dos homens, e se as têm são apenas fruto da sua evolução no contexto histórico-social.
-Não achei nunca e não o penso ainda hoje, que elas necessitem de quotas para participarem em qualquer campo da vida social, politica, ou laboral ou outro. Também não partilho a opinião contrária de alguns homens que temem os progressos que elas fazem em termos de carreiras de chefia a todos os níveis ou a sua preponderância no ensino superior; Para mim, isto não passa da regularização de uma situação, essa sim, de desigualdade e profunda injustiça que antes se verificava. Nada disto é mais do que evolução natural numa sociedade que se deseja igualitária.
-Não gosto de mulheres como quem gosta de uma obra de arte, mas como quem gosta de uma pessoa. Não devem, nem podem ser jamais, encaradas como um enfeite do mundo, como eternas vitimas da sociedade ou como se nela desempenhassem um papel com atribuições exclusivas de segundo plano. As mulheres, não devem ser nem “feministicamente” exaltadas, nem “marialvamente” desprezadas. As mulheres são seres humanos e apenas tanto quanto os homens o são. Essa é a característica que me faz gostar de mulheres em geral tanto como gosto dos homens e em particular (num único caso) mais, muito mais.

Rui

segunda-feira, março 06, 2006

Sampaio e a Casa Rosa









Presidente Ramalho Eanes, “O Carrancudo”

Presidente Mário Soares, “O Viajado”

Presidente Jorge Sampaio, “O Condecorador”


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Jorge Sampaio termina agora o seu 2º e provavelmente ultimo mandato presidencial; Fá-lo do modo oposto ao modo como o exerceu, isto é: dando, o mais possível nas vistas; esforçando-se por visitar e aparecer em todo o lado e sobretudo, condecorando o maior numero possível de pessoas; umas merecidamente, outras nem por isso.
-Ao fazer este pequeno balanço da acção do ainda Presidente da República, nada de realmente importante me ocorre e esse parece ter sido o traço essencial da sua acção. Herdou, em bom andamento, o processou de passagem de soberania de Macau e a fundação do estado de Timor e em ambos interveio o estritamente necessário para não atrapalhar. Fê-lo no entanto, ainda a tempo de recolher alguns (poucos), louros e aparecer a verter algumas lágrimas; Umas, de saudade antecipada e outras de aparente alegria, coisa em que aliás é honestamente pródigo, que parece agradar ao povo e de onde não vem ao mundo qualquer mal.
-Recordo que no início da sua presidência, foi muitas vezes confrontado com a crítica de possuir um discurso denso e dificilmente compreensível pela maioria dos portugueses e nesse capítulo, fez algumas cedências, libertando-se de expressões rebuscadas e tornando o seu discurso mais fluente, menos emproado e mais perceptível. Recordo também com agrado, algumas intervenções e entrevistas feitas em inglês que qualifico como brilhantes do ponto de vista da oratória politica.
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Jorge Sampaio ficará no entanto ligado indelevelmente a dois factos durante o seu “Magistério Politico”. O primeiro: o de ambos os seus associados profissionais, terem exercido funções relevantes a nível da justiça: Vera Jardim como ministro da justiça e Castro Caldas como Bastonário da Ordem dos Advogados. O outro facto foi o de ter aberto um precedente, se não perigoso, no mínimo estranho, para não dizer passível de suspeição de intenções na vida politica democrática, ao demitir o primeiro-ministro de um governo com apoio maioritário na AR. Para além disto apenas o facto de ter sido um presidente “generoso” no que diz respeito à atribuição de Ordens Honorificas em todos os graus. Isto, em rápida análise, retira-lhes alguma importância e algum do real significado que devem possuir como facto de real reconhecimento de méritos extraordinário e casos bem discutíveis existiram.
-Ficar-me-á a recordação de um homem emotivo e aparentemente sincero, empenhado e com muitas das características necessárias ao acto de bem-servir exercendo cargos públicos.

Se mais não fosse, resumiria estes dez anos de Portugal e da sua presidência como uma década. Apenas não sei bem como a qualificar, mas não lhe atribuo culpas de maior no que de essencial vai mal por cá.

Fico à espera, como sempre e como todos, de melhor.

Rui

Diálogos VII












-A felicidade dura dois minutos, a tristeza dura a vida toda.
-Já foste feliz?
-Já! Dois dias de uma vez e um de outra. Quase três…
-E depois?
-Depois? Depois, as dúvidas tomaram o lugar da felicidade e a hesitação o lugar da esperança. Foi tudo!
-Tudo?
-Tudo, tudo … não! Ficou a memória inesquecível, a saudade, a tristeza e a sensação de perda irreparável e depois… de novo a esperança.
-E isso… foi um momento feliz?
-Podes crer! O mais feliz dos momentos, se exceptuarmos algum riso que ouvi.

Rui

domingo, março 05, 2006

A LÁPIS













-Gosto de escrever a lápis.
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Gosto do som que a ponta macia faz ao sujar o papel.
-Escrevi sempre muito a lápis, gastei incontáveis tubinhos de madeira com a grafite dentro em afiadelas consecutivas. Reduzi o tamanho a muitos lápis, ate serem pequenos demais para me caberem na mão; Guardo essas pontas numa caixa, não sei porquê, como guardo todas as inúteis recordações que guardo sem saber porque o faço.

-Recordo com saudável saudade o som entrechocalhante que os meus lápis faziam na sua caixa de madeira que usava na escola. O cheiro a madeira intenso quando deslizava a tampa. O cheiro das apáras em espiral que saíam do afia-lápis e o traço a engrossar a cada letra, até à afiadéla seguinte.

-Agora uso um porta-minas,com minas quase tão finas como cabelos, que de quando em quando tenho que empurrar para continuar a sujar o papel com as palavras cinzentas.

Rui
Sábado, 04/02