Marxista ou Estóico? Café ou Descafeinado? Telejornal ou Telenovela? Electro-Rock ou Jazz? Berlim com ou sem muro? "Cem anos de Solidão" ou "O Alquimista"? Coca-Cola ou Pepsi? Ridley Scott ou Godard? “O Príncipe” de Maquiavel ou o “Príncipezinho” de Saint-Exupéry? Google ou Yahoo? Amelie Poulain ou Audrey Tautou? Gato Fedorento ou Camilo Castelo Branco? João Paulo II ou Stones ? Seinfeld ou Engels ? Canal História ou Flintstones? Jeunet ou Natalie Portman ? Ateísmo ou Ecstasy? Gótico ou Desconstrutivista? Liberdade anárquica ou Direito?
-Salvo raríssimas excepções, muito louváveis, o panorama cultural é extremamente boçal, e o espectáculo do possível e do improvável tão largo que apenas me resta fazer um sorrisinho amarelo, meio do canto da boca, e continuar andando. Isso, ou deixar que permaneça o meu maior ar de profundo tédio e depressão, enquanto tento não me interessar pelas causas de tal deserto de ideias. Essencialmente, continuar a viver, ou a sobreviver no meio desta “manada”, um dia penoso de cada vez.
-Telemóvel de ultima geração, máquina fotográfica digital de 200 milhões de pixeis, portátil de 250 gramas.
-Os livros que eu leio é que são bons, os filmes que vejo é que são inteligentes, os meus autores são mais cultos que os teus, a minha música é de melhores autores do que a tua.
-Como ser? Como se comportar? Como pensar? O que sentir?
-Usa-se e abusa-se de rótulos, de citações decoradas. É mais fácil ser ateu ou extremista do que ter uma ideologia, uma causa ou um credo. É pratico ser superficial e inócuo, passar ao lado e dizer que se passa por cima. Ser fútil e vão está na moda, ser assexuado e apolítico também.
-A humanidade é demasiado Kitsch, ser humano é “pindérico” e dizer pindérico é kitsch.
-Ninguém quer sentir terra nos pés nem que seja a dançar na terra molhada. Queremos “Nike” e “Reebock”. Queremos cafeína e “Prozac”. Queremos “Prada” e chinelos de praia. Queremos Estados Unidos quando convém e União Soviética quando dá jeito.
-Queremos depilação e implantes capilares. Tabaco e “fitness”. Álcool e comida vegetariana. Piercing’s, tatuagens e brancura. Neve e praia. Artesanato e “ready made”. Pacifistas e lutadores. Narcisistas e marxistas. Queremos ser Aristóteles e Einstein no mesmo corpo de um gladiador com a habilidade de Monet. Falamos da modernidade e somos voyeurs de concursos. Usamos o MSN e ficamos em silêncio com os amigos. Somos o pop de oitenta com a saudade do disco de setenta e do rock’n roll dos sessenta. Somos as nossas próprias imagens que tiramos com máquinas electrónicas e as velhas fotos dos honrados e desbotados antepassados. Somos revolucionários bêbados e afogados de liberdade capitalista. Reaccionários na vanguarda de belas causas a que assistimos em directo pela televisão. Somos “cult”. Somos tristes cópias do que queremos ser e do que acreditamos que somos, e entretanto, fugimos de nós em nome de nada, fugindo e deixando que fujam de nós para que depois tenhamos de que falar e o que lamentar.
-Um dia quando for demasiado tarde.
Rui
Nota: Apesar do tempo tristonho e fechado, hoje foi uma boa tarde!























