sexta-feira, janeiro 13, 2006













-Há anos atrás que desisti de discutir com idiotas é um esforço que tenho dado por bem empregue. Assim nem eles deixam de pertencer à espécie que tanto parecem prezar, nem eu corro o risco de me tornar num deles.

-Como dizia Miguel Unamuno: “Aos imbecis não há mais do que chamar-lhes imbecis cara a cara e seguir andando. Não há que lutar contra eles; porque se por um lado é perigoso alimentar-lhes o ego e a estupidez que em todos os tempos agita as multidões, por outro corremos o risco de cair no ressentimento que acaba por ser tão sectário e tão infiel à verdade como as heresias dominantes”.

-Para não me esquecer disto tenho feito um enorme esforço. Faço-o porque não me interessa lutar nem contra esquerdas ou direitas, ateus ou muçulmanos, nem contra judeus nem contra nazis mas apenas contra a mentira e contra a imbecilidade, que são uma e a mesma coisa.


Vem isto a propósito de uma discussão que não tive, acerca das campanhas de alguns candidatos à Presidência da Republica dos seus discursos e métodos, do que dizem e de como se comportam.

Rui

Frigorifico












-Tenho no meu frigorifico, um mundo inteiro de vazios interiores.
-Coisas sem açúcar, sem cafeína, sem calorias, sem gordura, sem sal, sem ilusão, sabor ou esperança.

Rui

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Profissionais e "biscateiros"










-Não entendo nem penso vir a entender o porquê de tanta gente inteligente acreditar quando um pedreiro, carpinteiro, electricista, pintor ou outro profissional de reparações em geral e afins, afirma: “Próxima segunda-feira, sem falta”.

-Toda a gente sabe que para esta estirpe de trabalhadores, a segunda-feira próxima significa um período variável que pode ir de quinze dias a seis meses depois da data aprazada. Alguns existem, para quem pode mesmo ultrapassar um ano e chegar até à eternidade. No entanto o ar sério com que proferem a frase e com que acrescentam uma hora concreta intriga-me profundamente: “Na próxima segunda-feira, sem falta às nove em ponto”. É como se eles próprios acreditassem naquilo que acabam de dizer ou como se eu acreditasse e fizesse o mais pequeno dos esforços para ficar em casa nessa data e hora. Não faço. Limito-me apenas no dia seguinte a ligar para saber a razão de não ter aparecido. Invariavelmente oiço que tem muito trabalho em mãos, que tentou avisar mas não foi possível e alguns não têm qualquer problema em “matar” alguém da família, sobretudo as sogras; Sim sogras, conheço um a quem já faleceram pelo menos quatro sogras e sempre na altura em que eu deveria estar à sua espera em casa. Coitada daquela família, devem ter por mim um ódio de morte.

-Eu, pela parte que me diz respeito, não tenho absolutamente nada que fazer; Sou um inútil ou um felizardo que pode dispor das manhãs sempre que quer para esperar um profissional de elevado gabarito, palavra honrada e extremamente ocupado que não vem nem avisa. “Mas fica já combinado, na próxima segunda-feira sem falta às nove em ponto”.

-Como disse antes não entendo porque o fazem. Se é mesmo muito o trabalho, se a minha encomenda é demasiado insignificante para esse barão da indústria, se não gostou de mim ou se pretende deixar-me “secar” até que o problema se me torne realmente insustentável, a empreitada mais cara e a necessidade dos seus serviços realmente absoluta. Aí terá a certeza que obtém a minha profunda e eterna gratidão, um pagamento maior e uma gratificação choruda. Se por acaso na altura em que o problema ficar resolvido já existir outro, eis que me dirá como um oráculo: “Está combinado, na próxima segunda-feira. Na próxima segunda-feira, sem falta às nove em ponto”.

-Sei que existem excepções mas são In-provaveis e que um dia falarei delas, talvez… na próxima segunda-feira, sem falta às nove em ponto.

Rui

terça-feira, janeiro 10, 2006

O Cisne aprende a nadar


Imagem adaptada de uma de origem, para mim, desconhecida.








-A natação não é como outros desportos algo natural para toda a gente; Correr, marchar ou pedalar são actividades que facilmente se dominam, uma vez que são naturais no ser humano tem a ver com o equilíbrio que nos é natural enquanto espécie.

Na natação é necessária grande coordenação de movimentos e vontade de aprender a conquistar o mundo da água.

-Nadar, é feito na posição horizontal que para muita gente não é uma posição natural para exercer qualquer tipo de esforço coordenado. (nada de bocas!)

-Os iniciados tendem a ficar algo desorientados e a sentir medo de cair quando tal não acontece; Sempre recomendei que se imaginassem sobre um colchão suave e confortável. Ainda nesta analogia, recordemos que quando nos preparamos para adormecer, o nosso corpo deve estar relaxado e os músculos soltos. É precisamente isto que devemos sentir para que possamos flutuar e a partir daqui iniciar o processo de habituação ao meio aquático.

-Mas o maior inimigo de todos é o medo, desenvolvido pouco após o nascimento é ele que nos faz actuar receosamente num meio que ainda não dominamos. Mas convém não esquecer que a água é nossa amiga e que muitos antes de nós, aprenderam a dominar o processo da natação.

-E nós já aprendemos tanta coisa nesta vida que antes nos assustava e que agora dominamos na perfeição. Lembrem-se de como aprenderam a andar.

Nota: A aprendizagem da natação deve ser sempre acompanhada por alguém com experiência comprovada de ensino e não dispensa em nenhuma circunstância a rigorosa observância de todas as normas de segurança. Nadar é o domínio de uma técnica e não do meio onde essa técnica de locomoção é praticada. Nunca se deve confiar na perícia arriscando a própria vida e colocando as de outros em perigo por isso.

Rui

Diálogos IV












-O que achas que é mais importante para se ser feliz?

-Profundo conhecimento da natureza e do comportamento social humano?

-Não!

-Capacidade de análise psicológica dos outros?

-Não!

-Hummm… Espírito aberto? Ter muitos amigos? Grande experiencia de relacionamento? Ser rico? Ter a mulher ideal? Gostar daquilo que se faz? Ter saúde? Ser céptico? Ter uma fé? Ser paciente? Provir de uma boa família?

-Não!

-Desisto. O que é?

-Sorte!


Rui

segunda-feira, janeiro 09, 2006

irRItante











-Não é sempre… nem todas as manhãs acordo irritado com o mundo e com tudo (excepto as minhas gatas), que se me depara nos primeiros vinte minutos do dia despertado. Por vezes até a minha inépcia me irrita: o tropeçar nos chinelos ao lado da cama, o corte ao barbear, o entornar do café, as coisas que não me aparecem onde as procuro e toda uma longa lista de imbecilidades que sou mais do que capaz de cometer, antes ainda de sair para a rua. Irritam-me as notícias na rádio acerca do trânsito, porque hão-de ter a mania de as dar se as repetem diariamente? Será por serem outros automóveis e não os do dia anterior, que lá estão nos engarrafamentos?

-Irrita-me de sobremaneira receber telefonemas logo pela manhã acerca de assuntos que não possuem nem urgência nem importância suficiente para gastar calorias a carregar nas teclas. Havia uma única excepção. Aí sim, era um prazer acordar e olhar o nome de quem me telefonava, falar um minuto, ou dois e levantava-me como se o mundo fosse só céu azul e sol prazenteiro. Mas até isso abandonou as minhas “madrugações”.

-Como disse isto não me acontece TODAS as manhãs, mas quase e nas poucas em que a má disposição não se manifesta imediatamente, é sempre uma questão de tempo até que surja. Nos dias chuvosos ou “morrinhentos”, a situação ainda se agrava mais. Por isso, faço daqui um apelo: Não se cruzem comigo antes de passar uma hora do meu despertar; Não me falem e se o fizerem por mera boa educação, que não seja mais do que um bom dia atirado de longe que eu responder-vos-ei.

-Já me disseram que talvez sofra de um qualquer estado depressivo, provocado pela falta de luminosidade e que deveria fazer algo como fototerapia. Só me faltava essa…, talvez faça, mas...é In-Provavel.

Rui


sábado, janeiro 07, 2006

Diálogos III












-O Amor vence tudo!

-O Amor vai à guerra?

-O Amor está em todo o lado!

-Aqui também?

-Claro!

-Onde? Não o vejo?

-Ora… lá estás tu. Não tens um ossinho romântico?

-Não. Tenho espinhas românticas que me picam por dentro!


Rui

terça-feira, janeiro 03, 2006

Proibir


-

-O recente debate nacional, aberto com a proibição de fumar em espaços cobertos em Espanha, veio de novo relançar a polémica acerca do tabaco e do proibicionismo.
-Como já se sabia, havendo força de vontade e não havendo cigarros é fácil deixar de fumar mas como não há fumo sem fogo, sempre quero ver como é que o governo vai descalçar a bota de restringir o consumo de tabaco e perder os largos milhões que os fumadores lhe entregam mensalmente em impostos tão ridículos como muitos outros que andam por aí.

-Se por acaso se proibisse o consumo de tabaco e já agora, o de álcool, desapareceriam as tosses e escarradelas e as borracheiras e pifos. Consequentemente, assim aliviados, os portugueses veriam as suas despesas diminuir e subir em flecha o nível de vida.
-Depois, poderia o Governo nacional restringir e mesmo proibir, o consumo de carne. Inicialmente, haveriam de existir protestos de produtores, talhantes, restaurantes e outros mal intencionados que não entendem que tudo seria em nome da boa saúde de todos. Mas logo diríamos: “Ainda me lembro quando andava “agarrado” à carne, coisas de jovem, mas agora estou “limpinho”!
-Com estas medidas, os portugueses finalmente aproximar-se-iam dos restantes países europeus.
-Era então a altura certa para atacar de frente e corajosamente, esse hábito que temos todos de consumir peixe, que como se sabe possui mercúrio, chumbo e outras várias substâncias nocivas. No primeiro ano apenas se comeria peixe no natal e noutras três ou quatro ocasiões definidas superiormente. Seria um processo lento mas eficaz, até que ninguém corresse já o risco de ficar com uma espinha entalada.
-Assim, libertos de mais uma praga, o povo começaria a estar com as finanças equilibradas e o risco de endividamento familiar com certeza desapareceria. Mas não basta, haveria que proibir outros terríveis vícios de que esta sociedade padece. Os transportes por exemplo. É sabido o quanto são poluentes e mortais em crimes de trânsito. Seriam proibidos todo o tipo de transportes públicos ou privados. Andar a pé reduziria ainda mais o risco de doenças cardíacas, para além de ser um excelente modo de poupar combustíveis e fazer baixar os índices de poluição. Aí, o nível de vida dos portugueses atingiria um patamar nunca alcançado. Estaríamos a par da Polónia, de Malta e quem sabe até mesmo da Grécia; sobretudo depois da proibição absoluta desses produtos nocivos que são os lacticínios.
-Devido a estas medidas de protecção da saúde e à consequente economia de meios e redução de despesas, Portugal poderia liderar o processo de construção da União Europeia.

-Depois tudo viria por acréscimo e de uma forma natural: o cinema, teatro, a música, a pêra rocha, o agrião – tudo pequenos vícios que lesam a saúde e se perdem facilmente, como se viu no caso do tabaco. E o problema da habitação também se resolve se demolirmos as casas e vivermos em comunhão absoluta com a natureza.

-Tudo é uma questão de rigor e força de vontade. Se todos colaborarmos o ordenado chega.

Em memória de PcM.

Rui

(este texto não pretende expressar com exactidão o meu pensamento acerca de qualquer assunto nele mencinado)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Anos








-A Caminhada de 2005 chegou ao fim.
-O ano anterior disse adeus e ocupou discretamente o seu lugar na eternidade e nos nossos corações. Para outros, foi com suspiros de alívio que o viram partir e com redobradas e repetidas esperanças… outra vez.
-Despediram-se dele com foguetes, festas, garrafas abertas e gritinhos por entre passas e beijos, tal como farão no próximo ano, deste que agora entrou.
-É assim todos os anos, depois o cenário artificial desfaz-se em dias seguidos; Ás alegrias sucedem-se outras alegrias e tristezas. Os aplausos e desejos esquecem-se, afogados na continuidade da vida. Na ressaca do quotidiano, onde as cores perdem brilho e as máscaras se retiram.
-Volta o trabalho e no dia 31 do primeiro mês, já ninguém recorda os doze ridículos e egoístas desejos de há um mês à meia-noite. Retorna a crueldade humana exibida em horário nobre para consumo rápido e fácil esquecimento. Retornam os silêncios cúmplices perante os olhares desesperados, os discursos vazios para calar as culpas solteiras, o sofrimento e de novo a esperança.

-Para o horóscopo chinês em 29 de Janeiro inicia-se o ano do cão, vamos a ver se o mundo não se comporta como um, raivoso de novo. Mas é In-Provavel!


Rui (revisão : Ana)

2006

sexta-feira, dezembro 30, 2005

FELIZ 2006














INUENDO-QUEEN



While the sun hangs in the sky and the desert has sand
While the waves crash in the sea and meet the land
While there's a wind and the stars and the rainbow
Till the mountains crumble into the plain
Oh yes we'll keep on tryin'
Tread that fine line
Oh we'll keep on tryin' yeah
Just passing our time
While we live according to race, colour or creed
While we rule by blind madness and pure greed
Our lives dictated by tradition, superstition, false religion
Through the eons, and on and on
Oh yes we'll keep on tryin'
We'll tread that fine line
Oh we'll keep on tryin'
Till the end of time
Till the end of time

Through the sorrow all through our splendour
Don't take offence at my innuendo

You can be anything you want to be
Just turn yourself into anything you think that you could ever be
Be free with your tempo, be free be free
Surrender your ego - be free, be free to yourself

Oooh, ooh -
If there's a God or any kind of justice under the sky
If there's a point, if there's a reason to live or die
If there's an answer to the questions we feel bound to ask
Show yourself - destroy our fears - release your mask
Oh yes we'll keep on trying
Hey tread that fine line
Yeah we'll keep on smiling yeah
And whatever will be - will be
We'll just keep on trying
We'll just keep on trying
Till the end of time
Till the end of time
Till the end of time



É com estas palavras que termino este ano.
Com esta mensagem de ESPERANÇA e de PERSEVERANÇA em forma de letra de canção.
Pena é que seja em inglês, mas as coisas belas não têm nacionalidade
Para todos um ANO NOVO FARTO DE COISAS BOAS.

Rui

quinta-feira, dezembro 29, 2005

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Diálogos II









— Tenho a certeza!
— Como é que tens a certeza?
— Tenho.
— Mas tens porquê?
— Porque sim.
— Isso não é resposta.
— Então não é?
— Não, não é! Como é que sabes e tens a certeza?
— Houve alguém que me disse.
— Quem?
— Toda a gente sabe disso.
— Toda a gente? Como toda a gente? Diz-me lá quem te disse.
— Ora… disseram-me.
— E tu acreditaste?
— Claro, quem me disse leu não sei onde.
— Mas como é que podes ter a certeza que é mesmo assim?
— Tendo. Eu acredito na pessoa que me contou.
— Na tal pessoa que leu?
— Leu ou ouviu na televisão num documentário.

Rui



sexta-feira, dezembro 23, 2005

quinta-feira, dezembro 22, 2005

DESPERTARES

















-Abriu primeiro o olho direito e depois o esquerdo com esforço considerável. Esticou-se lenta e preguiçosamente, delicadamente como uma flor que abre as pétalas ao sol primaveril. Era a elegância dos gestos, a lentidão quase pensada, com que esticava cada um dos membros e com que tacteava com os dedos alongados, o sofá em que adormecera. Olhou em volta e abriu a boca no seu ritual de acordar, leeeenntameeeente e bocejou.

-Parou apenas um momento e respirou profundamente. Era como se visse o mundo pela primeira vez. Como se a cada despertar tudo fosse novo, diferente e belo para si. A cada despertar uma vida nova dentro de um dia novo. Olhou o sol lá fora, invernoso e pálido, mas brilhante e quente e desejou-o acima de todas as coisas. Desejou deitar-se sob ele e absorver-lhe com a pele o brilho e o calor e ficar assim para sempre nessa indolência sem pecado.

-Reparou com especial atenção no movimento de um pequeno ramo que oscilava para lá da cortina da janela e projectava a sua sombra. Recordou-se de outros despertares, de outros ramos ondulantes e vagamente de acordar com companhia ali a seu lado. Sentiu uma saudade indescritível.

-Desceu até ao chão que pisou mansamente com passos decididos e silenciosos como se dançasse uma complicada coreografia mil vezes ensaiada. Sentou-se no chão tépido, aquecido pelo sol da manhã e gozou a sensação. Começou então, devagar, a lamber as patas e depois o resto do pelo.

Rui

terça-feira, dezembro 20, 2005

ESCREVER






Cada vez, tenho menos vontade de escrever e de cada vez que o tento, a inspiração e a vontade de o fazer fogem como se tivessem visto um “papão” ignóbil. O ruído das teclas surge hesitante e vago como vagos são os dedos que as primem e as ideias que surgem a negro sobre esta imitação electrónica de papel.

No entanto sei que a inspiração existe, que anda por aí na sua vida habitual, apenas longe e descrente de mim.

Nada do que escrevo parece ter qualquer nexo que não seja o da lamentação, um desfiar de tristezas em rosário rezado uma vez e outra.

Nunca tive a ideia de influenciar quem quer que fosse ou sequer de procurar palavras de alívio no retorno da leitura. Não, o que escrevo não me merece a mim comentários. Não me reconheço sequer qualidade na escrita, bem ao inverso, escrevo apenas porque sim e porque não e já são duas razões excelentes para que não deixe do fazer. Talvez as duas únicas razões que vislumbro daqui, deste limbo onde estou agora.

Um blog não passa de um espaço público em que estendemos a nossa alma a corar ao sol dos olhos que nos lêem. Se alguém se influenciar com o que escrevo que o faça. Caso contrario continuarei a escrever porque escrever é um modo de pensar, de sentir.

Já escrevi demais, acerca de “escrever”. Talvez um dia volte ao assunto.

Mas é In-Provavel.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Fazes-me falta












Fazes-me falta Ana, tanta falta!

Duas pessoas, duas visões, um amor e uma morte.
Este livro escrito com a aparente facilidade de quem sente, é uma magnífica obra acerca da saudade e das ocasiões perdidas para sempre, por culpa da cegueira que existe em todos nós quando fechamos os olhos ao amor. É sem duvida uma obra triste mas “imperdivel” para quem conjugue o verbo sentir na sua pessoa ou na de alguém.

Pela parte que me toca, tornou-se um objecto de culto e uma fonte de saudade por si só. Bem-haja quem mo ofereceu.

Rui

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Tempus












-Ela vivia cinco minutos depois de tudo e sabia sempre tudo o que sucedera cinco minutos antes . Os seus dias estavam cheios de certezas, que obtinha concluíndo das razões que conhecia antecipadamente. Nada a fazia mudar de ideias nem nada a inquietava jamais, porque sabia o que se passara há cinco minutos. Tinha os dias da vida cheios de presente e de futuro, separados por trezentos segundos bem contados. Desperdiçava o tempo que tinha sem sequer olhar para trás.


-Ele vivia atrasado cinco minutos. As suas horas estavam cheias de melancôlia do passado e do futuro que estava para si mais distante ainda, do que para toda a gente que conhecia. Tinha sido abandonado como uma lata velha por uma mulher que não era sua mas que era especial e ele só o soube dali a cinco minutos. Estava farto de si mesmo, farto dos amigos, dos relógios, farto até de estar farto de tudo. Ele não tinha tempo e via-o a fugir de si cada vez mais.

-O futuro esperava-os em silêncio mas eles com os medos, as dúvidas e as certezas não o viram e passaram por ele com dez minutos de intervalo.

Rui

quarta-feira, dezembro 14, 2005

PRECISA-SE



















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Rui

terça-feira, dezembro 13, 2005

Matar Saudades












-
Estava ali apenas. Estava ali parada como o seu olhar estava parado. Pareciam, ela e o olhar, esperar alguma coisa. Talvez fosse o autocarro que havia de levá-la a casa de um filho ou de um de um neto. Domingo, dia de almoço familiar numa casa cheia de alegria, crianças a correr gritando e fazendo barulho; Televisão alta e cheiro de carne assada e pudim. Filhos, netos, talvez bisnetos a rever, a ter ao colo, a dar beijos, a matar saudades. Lembrava-me vagamente a minha mãe; mas todas as mulheres de ar simples e olhos bondosos me lembram a minha mãe.
-Sabes… o meu pai morreu quando eu tinha quinze anos. Diziam-me que essa era a pior idade para se perder o pai. Mas hoje sei que não existe nenhuma idade boa para coisas tão más. A minha mãe então, ficou sozinha comigo e quando digo sozinha insisto no que digo. Naquela idade quando já se tem a chave de casa e a convicção de ser crescido, tudo no mundo são estradas que nos afastam de casa. No entanto, nunca passei uma Páscoa que não fosse com ela, um Natal que não lhe visse os olhos tristes e cinzentos que antes haviam sido verde-água-alegre.
-Não, não me deixava fazer tudo o que eu queria, bastava-lhe pedi-lo e a mim bastava-me que o pedisse.
-Hoje, quando vejo uma mulher de olhos bondosos lembro-me sempre da minha mãe.

-Chegou o autocarro e quando lhe vi o saco de roupa suja, maior do que ela e talvez tão pesado quanto ela, lembrei-me da proximidade do estabelecimento prisional; Lembrei-me das visitas dos domingos de manhã, reservadas apenas a familiares próximos. Há anos que assistia àquele desfilar de sacos dominicais nas proximidades de casa.

Talvez um filho, um neto ou talvez um bisneto? A matar saudades.

Rui