terça-feira, janeiro 10, 2006

Diálogos IV












-O que achas que é mais importante para se ser feliz?

-Profundo conhecimento da natureza e do comportamento social humano?

-Não!

-Capacidade de análise psicológica dos outros?

-Não!

-Hummm… Espírito aberto? Ter muitos amigos? Grande experiencia de relacionamento? Ser rico? Ter a mulher ideal? Gostar daquilo que se faz? Ter saúde? Ser céptico? Ter uma fé? Ser paciente? Provir de uma boa família?

-Não!

-Desisto. O que é?

-Sorte!


Rui

segunda-feira, janeiro 09, 2006

irRItante











-Não é sempre… nem todas as manhãs acordo irritado com o mundo e com tudo (excepto as minhas gatas), que se me depara nos primeiros vinte minutos do dia despertado. Por vezes até a minha inépcia me irrita: o tropeçar nos chinelos ao lado da cama, o corte ao barbear, o entornar do café, as coisas que não me aparecem onde as procuro e toda uma longa lista de imbecilidades que sou mais do que capaz de cometer, antes ainda de sair para a rua. Irritam-me as notícias na rádio acerca do trânsito, porque hão-de ter a mania de as dar se as repetem diariamente? Será por serem outros automóveis e não os do dia anterior, que lá estão nos engarrafamentos?

-Irrita-me de sobremaneira receber telefonemas logo pela manhã acerca de assuntos que não possuem nem urgência nem importância suficiente para gastar calorias a carregar nas teclas. Havia uma única excepção. Aí sim, era um prazer acordar e olhar o nome de quem me telefonava, falar um minuto, ou dois e levantava-me como se o mundo fosse só céu azul e sol prazenteiro. Mas até isso abandonou as minhas “madrugações”.

-Como disse isto não me acontece TODAS as manhãs, mas quase e nas poucas em que a má disposição não se manifesta imediatamente, é sempre uma questão de tempo até que surja. Nos dias chuvosos ou “morrinhentos”, a situação ainda se agrava mais. Por isso, faço daqui um apelo: Não se cruzem comigo antes de passar uma hora do meu despertar; Não me falem e se o fizerem por mera boa educação, que não seja mais do que um bom dia atirado de longe que eu responder-vos-ei.

-Já me disseram que talvez sofra de um qualquer estado depressivo, provocado pela falta de luminosidade e que deveria fazer algo como fototerapia. Só me faltava essa…, talvez faça, mas...é In-Provavel.

Rui


sábado, janeiro 07, 2006

Diálogos III












-O Amor vence tudo!

-O Amor vai à guerra?

-O Amor está em todo o lado!

-Aqui também?

-Claro!

-Onde? Não o vejo?

-Ora… lá estás tu. Não tens um ossinho romântico?

-Não. Tenho espinhas românticas que me picam por dentro!


Rui

terça-feira, janeiro 03, 2006

Proibir


-

-O recente debate nacional, aberto com a proibição de fumar em espaços cobertos em Espanha, veio de novo relançar a polémica acerca do tabaco e do proibicionismo.
-Como já se sabia, havendo força de vontade e não havendo cigarros é fácil deixar de fumar mas como não há fumo sem fogo, sempre quero ver como é que o governo vai descalçar a bota de restringir o consumo de tabaco e perder os largos milhões que os fumadores lhe entregam mensalmente em impostos tão ridículos como muitos outros que andam por aí.

-Se por acaso se proibisse o consumo de tabaco e já agora, o de álcool, desapareceriam as tosses e escarradelas e as borracheiras e pifos. Consequentemente, assim aliviados, os portugueses veriam as suas despesas diminuir e subir em flecha o nível de vida.
-Depois, poderia o Governo nacional restringir e mesmo proibir, o consumo de carne. Inicialmente, haveriam de existir protestos de produtores, talhantes, restaurantes e outros mal intencionados que não entendem que tudo seria em nome da boa saúde de todos. Mas logo diríamos: “Ainda me lembro quando andava “agarrado” à carne, coisas de jovem, mas agora estou “limpinho”!
-Com estas medidas, os portugueses finalmente aproximar-se-iam dos restantes países europeus.
-Era então a altura certa para atacar de frente e corajosamente, esse hábito que temos todos de consumir peixe, que como se sabe possui mercúrio, chumbo e outras várias substâncias nocivas. No primeiro ano apenas se comeria peixe no natal e noutras três ou quatro ocasiões definidas superiormente. Seria um processo lento mas eficaz, até que ninguém corresse já o risco de ficar com uma espinha entalada.
-Assim, libertos de mais uma praga, o povo começaria a estar com as finanças equilibradas e o risco de endividamento familiar com certeza desapareceria. Mas não basta, haveria que proibir outros terríveis vícios de que esta sociedade padece. Os transportes por exemplo. É sabido o quanto são poluentes e mortais em crimes de trânsito. Seriam proibidos todo o tipo de transportes públicos ou privados. Andar a pé reduziria ainda mais o risco de doenças cardíacas, para além de ser um excelente modo de poupar combustíveis e fazer baixar os índices de poluição. Aí, o nível de vida dos portugueses atingiria um patamar nunca alcançado. Estaríamos a par da Polónia, de Malta e quem sabe até mesmo da Grécia; sobretudo depois da proibição absoluta desses produtos nocivos que são os lacticínios.
-Devido a estas medidas de protecção da saúde e à consequente economia de meios e redução de despesas, Portugal poderia liderar o processo de construção da União Europeia.

-Depois tudo viria por acréscimo e de uma forma natural: o cinema, teatro, a música, a pêra rocha, o agrião – tudo pequenos vícios que lesam a saúde e se perdem facilmente, como se viu no caso do tabaco. E o problema da habitação também se resolve se demolirmos as casas e vivermos em comunhão absoluta com a natureza.

-Tudo é uma questão de rigor e força de vontade. Se todos colaborarmos o ordenado chega.

Em memória de PcM.

Rui

(este texto não pretende expressar com exactidão o meu pensamento acerca de qualquer assunto nele mencinado)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Anos








-A Caminhada de 2005 chegou ao fim.
-O ano anterior disse adeus e ocupou discretamente o seu lugar na eternidade e nos nossos corações. Para outros, foi com suspiros de alívio que o viram partir e com redobradas e repetidas esperanças… outra vez.
-Despediram-se dele com foguetes, festas, garrafas abertas e gritinhos por entre passas e beijos, tal como farão no próximo ano, deste que agora entrou.
-É assim todos os anos, depois o cenário artificial desfaz-se em dias seguidos; Ás alegrias sucedem-se outras alegrias e tristezas. Os aplausos e desejos esquecem-se, afogados na continuidade da vida. Na ressaca do quotidiano, onde as cores perdem brilho e as máscaras se retiram.
-Volta o trabalho e no dia 31 do primeiro mês, já ninguém recorda os doze ridículos e egoístas desejos de há um mês à meia-noite. Retorna a crueldade humana exibida em horário nobre para consumo rápido e fácil esquecimento. Retornam os silêncios cúmplices perante os olhares desesperados, os discursos vazios para calar as culpas solteiras, o sofrimento e de novo a esperança.

-Para o horóscopo chinês em 29 de Janeiro inicia-se o ano do cão, vamos a ver se o mundo não se comporta como um, raivoso de novo. Mas é In-Provavel!


Rui (revisão : Ana)

2006

sexta-feira, dezembro 30, 2005

FELIZ 2006














INUENDO-QUEEN



While the sun hangs in the sky and the desert has sand
While the waves crash in the sea and meet the land
While there's a wind and the stars and the rainbow
Till the mountains crumble into the plain
Oh yes we'll keep on tryin'
Tread that fine line
Oh we'll keep on tryin' yeah
Just passing our time
While we live according to race, colour or creed
While we rule by blind madness and pure greed
Our lives dictated by tradition, superstition, false religion
Through the eons, and on and on
Oh yes we'll keep on tryin'
We'll tread that fine line
Oh we'll keep on tryin'
Till the end of time
Till the end of time

Through the sorrow all through our splendour
Don't take offence at my innuendo

You can be anything you want to be
Just turn yourself into anything you think that you could ever be
Be free with your tempo, be free be free
Surrender your ego - be free, be free to yourself

Oooh, ooh -
If there's a God or any kind of justice under the sky
If there's a point, if there's a reason to live or die
If there's an answer to the questions we feel bound to ask
Show yourself - destroy our fears - release your mask
Oh yes we'll keep on trying
Hey tread that fine line
Yeah we'll keep on smiling yeah
And whatever will be - will be
We'll just keep on trying
We'll just keep on trying
Till the end of time
Till the end of time
Till the end of time



É com estas palavras que termino este ano.
Com esta mensagem de ESPERANÇA e de PERSEVERANÇA em forma de letra de canção.
Pena é que seja em inglês, mas as coisas belas não têm nacionalidade
Para todos um ANO NOVO FARTO DE COISAS BOAS.

Rui

quinta-feira, dezembro 29, 2005

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Diálogos II









— Tenho a certeza!
— Como é que tens a certeza?
— Tenho.
— Mas tens porquê?
— Porque sim.
— Isso não é resposta.
— Então não é?
— Não, não é! Como é que sabes e tens a certeza?
— Houve alguém que me disse.
— Quem?
— Toda a gente sabe disso.
— Toda a gente? Como toda a gente? Diz-me lá quem te disse.
— Ora… disseram-me.
— E tu acreditaste?
— Claro, quem me disse leu não sei onde.
— Mas como é que podes ter a certeza que é mesmo assim?
— Tendo. Eu acredito na pessoa que me contou.
— Na tal pessoa que leu?
— Leu ou ouviu na televisão num documentário.

Rui



sexta-feira, dezembro 23, 2005

quinta-feira, dezembro 22, 2005

DESPERTARES

















-Abriu primeiro o olho direito e depois o esquerdo com esforço considerável. Esticou-se lenta e preguiçosamente, delicadamente como uma flor que abre as pétalas ao sol primaveril. Era a elegância dos gestos, a lentidão quase pensada, com que esticava cada um dos membros e com que tacteava com os dedos alongados, o sofá em que adormecera. Olhou em volta e abriu a boca no seu ritual de acordar, leeeenntameeeente e bocejou.

-Parou apenas um momento e respirou profundamente. Era como se visse o mundo pela primeira vez. Como se a cada despertar tudo fosse novo, diferente e belo para si. A cada despertar uma vida nova dentro de um dia novo. Olhou o sol lá fora, invernoso e pálido, mas brilhante e quente e desejou-o acima de todas as coisas. Desejou deitar-se sob ele e absorver-lhe com a pele o brilho e o calor e ficar assim para sempre nessa indolência sem pecado.

-Reparou com especial atenção no movimento de um pequeno ramo que oscilava para lá da cortina da janela e projectava a sua sombra. Recordou-se de outros despertares, de outros ramos ondulantes e vagamente de acordar com companhia ali a seu lado. Sentiu uma saudade indescritível.

-Desceu até ao chão que pisou mansamente com passos decididos e silenciosos como se dançasse uma complicada coreografia mil vezes ensaiada. Sentou-se no chão tépido, aquecido pelo sol da manhã e gozou a sensação. Começou então, devagar, a lamber as patas e depois o resto do pelo.

Rui

terça-feira, dezembro 20, 2005

ESCREVER






Cada vez, tenho menos vontade de escrever e de cada vez que o tento, a inspiração e a vontade de o fazer fogem como se tivessem visto um “papão” ignóbil. O ruído das teclas surge hesitante e vago como vagos são os dedos que as primem e as ideias que surgem a negro sobre esta imitação electrónica de papel.

No entanto sei que a inspiração existe, que anda por aí na sua vida habitual, apenas longe e descrente de mim.

Nada do que escrevo parece ter qualquer nexo que não seja o da lamentação, um desfiar de tristezas em rosário rezado uma vez e outra.

Nunca tive a ideia de influenciar quem quer que fosse ou sequer de procurar palavras de alívio no retorno da leitura. Não, o que escrevo não me merece a mim comentários. Não me reconheço sequer qualidade na escrita, bem ao inverso, escrevo apenas porque sim e porque não e já são duas razões excelentes para que não deixe do fazer. Talvez as duas únicas razões que vislumbro daqui, deste limbo onde estou agora.

Um blog não passa de um espaço público em que estendemos a nossa alma a corar ao sol dos olhos que nos lêem. Se alguém se influenciar com o que escrevo que o faça. Caso contrario continuarei a escrever porque escrever é um modo de pensar, de sentir.

Já escrevi demais, acerca de “escrever”. Talvez um dia volte ao assunto.

Mas é In-Provavel.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Fazes-me falta












Fazes-me falta Ana, tanta falta!

Duas pessoas, duas visões, um amor e uma morte.
Este livro escrito com a aparente facilidade de quem sente, é uma magnífica obra acerca da saudade e das ocasiões perdidas para sempre, por culpa da cegueira que existe em todos nós quando fechamos os olhos ao amor. É sem duvida uma obra triste mas “imperdivel” para quem conjugue o verbo sentir na sua pessoa ou na de alguém.

Pela parte que me toca, tornou-se um objecto de culto e uma fonte de saudade por si só. Bem-haja quem mo ofereceu.

Rui

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Tempus












-Ela vivia cinco minutos depois de tudo e sabia sempre tudo o que sucedera cinco minutos antes . Os seus dias estavam cheios de certezas, que obtinha concluíndo das razões que conhecia antecipadamente. Nada a fazia mudar de ideias nem nada a inquietava jamais, porque sabia o que se passara há cinco minutos. Tinha os dias da vida cheios de presente e de futuro, separados por trezentos segundos bem contados. Desperdiçava o tempo que tinha sem sequer olhar para trás.


-Ele vivia atrasado cinco minutos. As suas horas estavam cheias de melancôlia do passado e do futuro que estava para si mais distante ainda, do que para toda a gente que conhecia. Tinha sido abandonado como uma lata velha por uma mulher que não era sua mas que era especial e ele só o soube dali a cinco minutos. Estava farto de si mesmo, farto dos amigos, dos relógios, farto até de estar farto de tudo. Ele não tinha tempo e via-o a fugir de si cada vez mais.

-O futuro esperava-os em silêncio mas eles com os medos, as dúvidas e as certezas não o viram e passaram por ele com dez minutos de intervalo.

Rui

quarta-feira, dezembro 14, 2005

PRECISA-SE



















Anúncio In-Provavel

Rui

terça-feira, dezembro 13, 2005

Matar Saudades












-
Estava ali apenas. Estava ali parada como o seu olhar estava parado. Pareciam, ela e o olhar, esperar alguma coisa. Talvez fosse o autocarro que havia de levá-la a casa de um filho ou de um de um neto. Domingo, dia de almoço familiar numa casa cheia de alegria, crianças a correr gritando e fazendo barulho; Televisão alta e cheiro de carne assada e pudim. Filhos, netos, talvez bisnetos a rever, a ter ao colo, a dar beijos, a matar saudades. Lembrava-me vagamente a minha mãe; mas todas as mulheres de ar simples e olhos bondosos me lembram a minha mãe.
-Sabes… o meu pai morreu quando eu tinha quinze anos. Diziam-me que essa era a pior idade para se perder o pai. Mas hoje sei que não existe nenhuma idade boa para coisas tão más. A minha mãe então, ficou sozinha comigo e quando digo sozinha insisto no que digo. Naquela idade quando já se tem a chave de casa e a convicção de ser crescido, tudo no mundo são estradas que nos afastam de casa. No entanto, nunca passei uma Páscoa que não fosse com ela, um Natal que não lhe visse os olhos tristes e cinzentos que antes haviam sido verde-água-alegre.
-Não, não me deixava fazer tudo o que eu queria, bastava-lhe pedi-lo e a mim bastava-me que o pedisse.
-Hoje, quando vejo uma mulher de olhos bondosos lembro-me sempre da minha mãe.

-Chegou o autocarro e quando lhe vi o saco de roupa suja, maior do que ela e talvez tão pesado quanto ela, lembrei-me da proximidade do estabelecimento prisional; Lembrei-me das visitas dos domingos de manhã, reservadas apenas a familiares próximos. Há anos que assistia àquele desfilar de sacos dominicais nas proximidades de casa.

Talvez um filho, um neto ou talvez um bisneto? A matar saudades.

Rui

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Estranha forma de Ecologia



-
Vá, vamos já ajudar a limpar o planeta terra desta escória humana que nos polui a vida e a sociedade.

-Acima de tudo fume, conduza sem cinto de segurança sempre e se for mota o que o transporta nunca, mas nunca use capacete. Coma comida rápida a cada refeição em sempre em grande quantidade. Ande apenas o essencial a pé e faça sempre sexo sem usar preservativo. Não se vacine, não olhe sequer quando atravessar fora das passadeiras e nada de respeitar os limites de velocidade, seja insalubre. Caminhe de noite, horas altas, pelos piores bairros da sua cidade e frequente todos os pardieiros que puder buscando sempre as piores companhias. Manipule explosivos, substancias tóxicas e se possível radioactivas. Meta os dedos nas tomadas, tome carradas de comprimidos, ateste-se de álcool em simultâneo e porque não? Tome drogas, das pesadas de preferência. Adormeça sempre com um cigarro aceso nos dedos, durma o menos que puder e responda sempre mal a quem lhe buzine.

-Mas sobretudo apaixone-se, apaixone-se profundamente e julgue-se correspondido.

-Enfim goze a vida e morra no processo.


Rui

domingo, dezembro 11, 2005

O Mundo Está Perdido













O Mundo está desequilibrado.
O Mundo está perdido.
Esta nova geração não é tão capaz como foi a nossa.
A juventude de hoje não tem valores morais nem princípios éticos.
Os jovens são superficiais, apenas buscam o prazer.
Vivemos o primado do egoísmo.
O mundo está perdido.



-Estas frases, são proferidas com algum desespero passivo por quem perdeu o rumo dos dias, ou se perdeu nele. Por quem vê o seu fim a cada passo mais perto e assim expressa a sua própria desgraça, tristeza e amargura. É muito mais a alma do observador/comentador que se ouve do que a constatação dos factos que observa e de que tira as conclusões. São fruto da descrença e das esperanças frustradas; Da cegueira para com a mudança e da incapacidade de abrir os sentidos e o coração à constante e perpétua mudança social a que chamo evolução e aperfeiçoamento. Tudo é mutável, até mesmo os grandes valores se adaptam às consciências novas e estas a eles sem que deixem de existir.

-O mais profundo significado que atribuo à expressão “alma velha” é este. É o acto de permanecer de braços caídos, cego, surdo e estúpido perante as mudanças que nos arrastam na corrente dos dias. Esta atitude é a que conduz e reduz a uma argumentação maldizente, simultaneamente símbolo de paragem e de desejo de retrocesso, que nos manteria como seres humanos vivos com sombra de cadáveres.

-Infelizmente não vejo estas atitudes apenas como devaneios de velhos. São bem mais e pior do que apenas isso traduzem a incultura e estreiteza de pensamento de muita gente.

-Li não me recordo onde, a tradução de um documento encontrado durante uma escavação arqueológica, talvez Suméria, mas não posso precisar e que aqui reproduzo de memória:

-Os meus filhos não têm valores nem a sua geração.
-O meu pai, o meu avô e os seus avós trabalharam e viveram sempre com a honra que me deixaram e que eu queria para os meus filhos, netos e bisnetos. Mas eles não a desejam. Este mundo tal como o conheço está perdido.
-No entanto, isto ouvi-o ao meu pai acerca da minha geração, ele ao meu avô acerca da sua e este ao seu pai acerca da dele. Ainda assim existimos melhor do que nos tempos antigos e distantes.
-Talvez o mundo seja assim e eu esteja errado como eles estavam”

-No futuro veremos.

Rui

sábado, dezembro 10, 2005

Voar
















-Quando somos novos uma grande parte do tempo que temos é dispendido numa quase incessante busca de novas sensações, diversão e experiências. Admiramos a sensação que nos traz a queda no vazio, a velocidade e a vertigem da busca de felicidade.

-Depois crescemos, seja lá isso o que for, desenvolvemos medos e receios e já não nos lançamos nos ares de braços e coração aberto. Temos medo que ninguém nos ajude na queda e que não haja quem nos estenda os braços para nos ajudar a reerguer. Já não nos aproximamos da borda do abismo e receamos a proximidade de tudo o que não conhecemos, que nos assusta e que seja novo. Temos medo e recuamos, temos medo e não voamos, temos medo e paramos de crescer por dentro. Medo de partir uns ossos ou o coração e já não voamos.



“Ele levou-os à beira do abismo e então disse-lhes:

-Saltem!

Eles estremeceram, deram um passo a trás e não saltaram.

Ele então olhou-os nos olhos e repetiu:

-Saltem!!

Eles então voaram...”


Rui

sexta-feira, dezembro 09, 2005

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que a minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.

(poema de Vasco Graça Moura)