sexta-feira, dezembro 23, 2005
quinta-feira, dezembro 22, 2005
DESPERTARES
-Abriu primeiro o olho direito e depois o esquerdo com esforço considerável. Esticou-se lenta e preguiçosamente, delicadamente como uma flor que abre as pétalas ao sol primaveril. Era a elegância dos gestos, a lentidão quase pensada, com que esticava cada um dos membros e com que tacteava com os dedos alongados, o sofá em que adormecera. Olhou em volta e abriu a boca no seu ritual de acordar, leeeenntameeeente e bocejou.
-Parou apenas um momento e respirou profundamente. Era como se visse o mundo pela primeira vez. Como se a cada despertar tudo fosse novo, diferente e belo para si. A cada despertar uma vida nova dentro de um dia novo. Olhou o sol lá fora, invernoso e pálido, mas brilhante e quente e desejou-o acima de todas as coisas. Desejou deitar-se sob ele e absorver-lhe com a pele o brilho e o calor e ficar assim para sempre nessa indolência sem pecado.
-Reparou com especial atenção no movimento de um pequeno ramo que oscilava para lá da cortina da janela e projectava a sua sombra. Recordou-se de outros despertares, de outros ramos ondulantes e vagamente de acordar com companhia ali a seu lado. Sentiu uma saudade indescritível.
-Desceu até ao chão que pisou mansamente com passos decididos e silenciosos como se dançasse uma complicada coreografia mil vezes ensaiada. Sentou-se no chão tépido, aquecido pelo sol da manhã e gozou a sensação. Começou então, devagar, a lamber as patas e depois o resto do pelo.
Rui
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quinta-feira, dezembro 22, 2005
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terça-feira, dezembro 20, 2005
ESCREVER
Cada vez, tenho menos vontade de escrever e de cada vez que o tento, a inspiração e a vontade de o fazer fogem como se tivessem visto um “papão” ignóbil. O ruído das teclas surge hesitante e vago como vagos são os dedos que as primem e as ideias que surgem a negro sobre esta imitação electrónica de papel.
No entanto sei que a inspiração existe, que anda por aí na sua vida habitual, apenas longe e descrente de mim.
Nada do que escrevo parece ter qualquer nexo que não seja o da lamentação, um desfiar de tristezas em rosário rezado uma vez e outra.
Nunca tive a ideia de influenciar quem quer que fosse ou sequer de procurar palavras de alívio no retorno da leitura. Não, o que escrevo não me merece a mim comentários. Não me reconheço sequer qualidade na escrita, bem ao inverso, escrevo apenas porque sim e porque não e já são duas razões excelentes para que não deixe do fazer. Talvez as duas únicas razões que vislumbro daqui, deste limbo onde estou agora.
Um blog não passa de um espaço público em que estendemos a nossa alma a corar ao sol dos olhos que nos lêem. Se alguém se influenciar com o que escrevo que o faça. Caso contrario continuarei a escrever porque escrever é um modo de pensar, de sentir.
Já escrevi demais, acerca de “escrever”. Talvez um dia volte ao assunto.
Mas é In-Provavel.
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terça-feira, dezembro 20, 2005
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segunda-feira, dezembro 19, 2005
Fazes-me falta
Fazes-me falta Ana, tanta falta!
Duas pessoas, duas visões, um amor e uma morte.
Este livro escrito com a aparente facilidade de quem sente, é uma magnífica obra acerca da saudade e das ocasiões perdidas para sempre, por culpa da cegueira que existe em todos nós quando fechamos os olhos ao amor. É sem duvida uma obra triste mas “imperdivel” para quem conjugue o verbo sentir na sua pessoa ou na de alguém.
Pela parte que me toca, tornou-se um objecto de culto e uma fonte de saudade por si só. Bem-haja quem mo ofereceu.
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segunda-feira, dezembro 19, 2005
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quinta-feira, dezembro 15, 2005
Tempus
-Ela vivia cinco minutos depois de tudo e sabia sempre tudo o que sucedera cinco minutos antes . Os seus dias estavam cheios de certezas, que obtinha concluíndo das razões que conhecia antecipadamente. Nada a fazia mudar de ideias nem nada a inquietava jamais, porque sabia o que se passara há cinco minutos. Tinha os dias da vida cheios de presente e de futuro, separados por trezentos segundos bem contados. Desperdiçava o tempo que tinha sem sequer olhar para trás.
-O futuro esperava-os em silêncio mas eles com os medos, as dúvidas e as certezas não o viram e passaram por ele com dez minutos de intervalo.
Rui
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quinta-feira, dezembro 15, 2005
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quarta-feira, dezembro 14, 2005
terça-feira, dezembro 13, 2005
Matar Saudades
-Estava ali apenas. Estava ali parada como o seu olhar estava parado. Pareciam, ela e o olhar, esperar alguma coisa. Talvez fosse o autocarro que havia de levá-la a casa de um filho ou de um de um neto. Domingo, dia de almoço familiar numa casa cheia de alegria, crianças a correr gritando e fazendo barulho; Televisão alta e cheiro de carne assada e pudim. Filhos, netos, talvez bisnetos a rever, a ter ao colo, a dar beijos, a matar saudades. Lembrava-me vagamente a minha mãe; mas todas as mulheres de ar simples e olhos bondosos me lembram a minha mãe.
-Sabes… o meu pai morreu quando eu tinha quinze anos. Diziam-me que essa era a pior idade para se perder o pai. Mas hoje sei que não existe nenhuma idade boa para coisas tão más. A minha mãe então, ficou sozinha comigo e quando digo sozinha insisto no que digo. Naquela idade quando já se tem a chave de casa e a convicção de ser crescido, tudo no mundo são estradas que nos afastam de casa. No entanto, nunca passei uma Páscoa que não fosse com ela, um Natal que não lhe visse os olhos tristes e cinzentos que antes haviam sido verde-água-alegre.
-Não, não me deixava fazer tudo o que eu queria, bastava-lhe pedi-lo e a mim bastava-me que o pedisse.
-Hoje, quando vejo uma mulher de olhos bondosos lembro-me sempre da minha mãe.
Talvez um filho, um neto ou talvez um bisneto? A matar saudades.
Rui
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terça-feira, dezembro 13, 2005
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segunda-feira, dezembro 12, 2005
Estranha forma de Ecologia
-Vá, vamos já ajudar a limpar o planeta terra desta escória humana que nos polui a vida e a sociedade.
-Acima de tudo fume, conduza sem cinto de segurança sempre e se for mota o que o transporta nunca, mas nunca use capacete. Coma comida rápida a cada refeição em sempre em grande quantidade. Ande apenas o essencial a pé e faça sempre sexo sem usar preservativo. Não se vacine, não olhe sequer quando atravessar fora das passadeiras e nada de respeitar os limites de velocidade, seja insalubre. Caminhe de noite, horas altas, pelos piores bairros da sua cidade e frequente todos os pardieiros que puder buscando sempre as piores companhias. Manipule explosivos, substancias tóxicas e se possível radioactivas. Meta os dedos nas tomadas, tome carradas de comprimidos, ateste-se de álcool em simultâneo e porque não? Tome drogas, das pesadas de preferência. Adormeça sempre com um cigarro aceso nos dedos, durma o menos que puder e responda sempre mal a quem lhe buzine.
-Mas sobretudo apaixone-se, apaixone-se profundamente e julgue-se correspondido.
-Enfim goze a vida e morra no processo.
Rui
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domingo, dezembro 11, 2005
O Mundo Está Perdido
O Mundo está desequilibrado.
O Mundo está perdido.
Esta nova geração não é tão capaz como foi a nossa.
A juventude de hoje não tem valores morais nem princípios éticos.
Os jovens são superficiais, apenas buscam o prazer.
Vivemos o primado do egoísmo.
O mundo está perdido.
-Estas frases, são proferidas com algum desespero passivo por quem perdeu o rumo dos dias, ou se perdeu nele. Por quem vê o seu fim a cada passo mais perto e assim expressa a sua própria desgraça, tristeza e amargura. É muito mais a alma do observador/comentador que se ouve do que a constatação dos factos que observa e de que tira as conclusões. São fruto da descrença e das esperanças frustradas; Da cegueira para com a mudança e da incapacidade de abrir os sentidos e o coração à constante e perpétua mudança social a que chamo evolução e aperfeiçoamento. Tudo é mutável, até mesmo os grandes valores se adaptam às consciências novas e estas a eles sem que deixem de existir.
-O mais profundo significado que atribuo à expressão “alma velha” é este. É o acto de permanecer de braços caídos, cego, surdo e estúpido perante as mudanças que nos arrastam na corrente dos dias. Esta atitude é a que conduz e reduz a uma argumentação maldizente, simultaneamente símbolo de paragem e de desejo de retrocesso, que nos manteria como seres humanos vivos com sombra de cadáveres.
-Infelizmente não vejo estas atitudes apenas como devaneios de velhos. São bem mais e pior do que apenas isso traduzem a incultura e estreiteza de pensamento de muita gente.
-Li não me recordo onde, a tradução de um documento encontrado durante uma escavação arqueológica, talvez Suméria, mas não posso precisar e que aqui reproduzo de memória:
“ -Os meus filhos não têm valores nem a sua geração.
-O meu pai, o meu avô e os seus avós trabalharam e viveram sempre com a honra que me deixaram e que eu queria para os meus filhos, netos e bisnetos. Mas eles não a desejam. Este mundo tal como o conheço está perdido.
-No entanto, isto ouvi-o ao meu pai acerca da minha geração, ele ao meu avô acerca da sua e este ao seu pai acerca da dele. Ainda assim existimos melhor do que nos tempos antigos e distantes.
-Talvez o mundo seja assim e eu esteja errado como eles estavam”
-No futuro veremos.
Rui
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sábado, dezembro 10, 2005
Voar
-Quando somos novos uma grande parte do tempo que temos é dispendido numa quase incessante busca de novas sensações, diversão e experiências. Admiramos a sensação que nos traz a queda no vazio, a velocidade e a vertigem da busca de felicidade.
-Depois crescemos, seja lá isso o que for, desenvolvemos medos e receios e já não nos lançamos nos ares de braços e coração aberto. Temos medo que ninguém nos ajude na queda e que não haja quem nos estenda os braços para nos ajudar a reerguer. Já não nos aproximamos da borda do abismo e receamos a proximidade de tudo o que não conhecemos, que nos assusta e que seja novo. Temos medo e recuamos, temos medo e não voamos, temos medo e paramos de crescer por dentro. Medo de partir uns ossos ou o coração e já não voamos.
“Ele levou-os à beira do abismo e então disse-lhes:
-Saltem!
Eles estremeceram, deram um passo a trás e não saltaram.
Ele então olhou-os nos olhos e repetiu:
-Saltem!!
Eles então voaram...”
Rui
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sexta-feira, dezembro 09, 2005
sobre a minha cidade
sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre
a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi
violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,
maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.
que percorreste as pontes que a minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.
(poema de Vasco Graça Moura)
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sexta-feira, dezembro 09, 2005
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Carta ao pai natal

-Tenho que confessar que nunca acreditei, nem em ti, nem na tua existência. Mesmo quando tinha idade para acreditar em ti, não era em ti mas no menino Jesus que acreditava. Não sei bem porquê, talvez por tradição familiar, cultural ou apenas talvez porquê sim.
-A ti, pensei-te sempre como um ser de ficção, de filmes e de outra cultura que não era e não é a minha. Que esperavas? Deixaste que te vestissem com a cor da coca-cola e te colocassem umas barbas como as do Ho-Chi-Min que me aterrorizava sempre que aparecia nos telejornais da noite quando era criança.
-Ainda não me apresentei, apenas porque me dizem que sabes tudo acerca de todas a gente, com uma espécie de omnisciência emprestada por Deus. Sobretudo, dizem-me que sabes tudo acerca de todas as crianças e eu tenho alguns aspectos em que quero ser sempre criança e por isso saberás tudo acerca de mim também.
-Lembrei-me agora que além de tudo o que te contei já, também nunca tive uma chaminé em que pudesses passar em condições. Não, não estou a insinuar que sejas gordo. É que esse fato que usas não deve mesmo dar jeito nenhum para essas descidas e subidas em espaços tão apertados como são as chaminés das cidades de agora.
-Bem...depois a vida foi mudando. Foi-se tornando a cada ano mais complicada e era-me difícil, e ainda é, acreditar na existência de alguém que nunca vira como me é difícil acreditar em algo que não sinto. Lá fui vivendo então, sem ti e muitas vezes até sem Natal. Lá fui passando pela época, muitas vezes desejando apenas que ela passasse por mim o mais depressa possível. Desejando que se extinguissem dos rostos os sorrisos de plástico e se calassem as saudações e os votos de circunstância.
-Via-te, apesar de tudo, em todos os locais por onde passava. Mais alto ou mais baixo, mais magro ou mais gordo... Forte, era forte que queria dizer! Com a barba lisa ou encaracolada, amarelada de fumo de cigarro ou imaculadamente branca, côr de plástico barato. Encontro-te a cada passo nas grandes superfícies em promoções oportunistas de quase tudo e na Internet. Vejo-te pendurado de varandas como um ladrão e em centros comerciais a segurar criancinhas com ar enfastiado, "para a fotografia". Vejo-te nas ruas, a abanar campaínhas e a pedinchar moedas para instituições que nem sei muitas vezes se existem ou a que fins se destinam. Até já te encontrei numa casa de banho pública a fazer o mesmo que eu, com ar aliviado, a fumares quase às escondidas um cigarro e saíste sem teres lavado as mãos.
-Mas, …enfim, tudo isso é passado e deve ficar no local a que pertence que é o passado.
Hoje, escrevo-te a primeira carta em quarenta e um anos para te fazer um pedido. Não é nada de impossível, e eu não sei, nem nunca soube, pedir o que quer que fosse. Que queres? O meu orgulho, como algumas das minhas convicções já não é como era e por vezes, o desespero leva a que engulamos o orgulho e até se aprende a pedir ao Pai Natal. Tu sabes tudo isso . Sabes bem o que sou e que sou apenas como sou. Sabes o que mais desejo, como, e porquê. Por isso não te vou maçar repetindo o que já sabes. Caso possas, agradecia a tua atenção mas talvez nem tu possas… Se sim, prometo passar a acreditar em ti, mais até do que acredito em mim. Prometo-te que vou comprar uma imagem tua e colocá-la sobre a lareira todo o ano e nunca me esquecer de te deixar um copo de leite e bolachas, ou se preferires, champanhe e salmão fumado; Do importado está claro!
-Fica bem. Evita o colesterol e mede a pressão arterial com regularidade. Tem cuidado contigo que o mundo está cheio de coisas más e as noites estão frias como o coração de muitas pessoas.
Teu amigo:
Rui
PS - Como sabes e com certeza compreendes, enviei uma carta ao Menino Jesus acerca do mesmo assunto. É que nestas coisas mais vale tentar jogar pelo seguro.
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quinta-feira, dezembro 08, 2005
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sexta-feira, dezembro 02, 2005
Palavras e Sonhos
---------Hoje mesmo, uma pessoa que muito respeito e considero, vai ter ocasião de publicar mais um livro.
---------É pelas 18:00 horas no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Stº. Ildefonso no Porto e a apresentação da Obra será feita por: Mário Cláudio (Prémio Pessoa 2004) e por Snr. D. Manuel Martins (Bispo Emérito de Setúbal).
-----------Estarei lá presente e deixo aqui um pequeno texto extraído dessa obra.
---------- Sei bem o quanto o mundo lhe deve e o quanto ele jamais lhe cobrou. Se juntarmos uma vida e uma carreira ao serviço dos outros, dificilmente conseguiremos obter um tão brilhante resultado; Pleno de dádiva e de HUMANIDADE.
---------Ao meu, ouso chamar-lhe amigo, Dr. Alexandrino Brochado, o meu abraço de admiração.
LOUVOR DOS POETAS
A beleza e a arte verdadeiras nunca morrem. Ultrapassam o tempo. Têm o selo da perenidade.
Trata-se, sim, duma expressão de mágoa pelo abandono, pela rejeição de valores que sempre julgamos fora e acima de qualquer ataque ou inflação.
Há dias, numa homenagem prestada a um artista (com letra grande) português, este, ao agradecer as palavras de apreço e de carinho, afirmou: “A vida do artista é dura e áspera sobretudo no país em que vivemos. Aconteceu-me uma fatalidade: acabei uma nova obra… As composições ficam na gaveta, serão vendidas a peso e servirão para embrulhar sabão (o que já aconteceu) ou para buchas de foguetes…”
Palavras duras, magoadas, dum grande vulto da música portuguesa contemporânea! Sinceramente, tive e tenho pena que no podium da arte e da beleza sejam colocados pseudo artistas sem valor, sem dimensão e que os autênticos, os verdadeiros, sejam atirados para a prateleira das coisas velhas e inúteis, cobertas de pó.
E o que dizemos da música, afirmamo-lo da literatura. No momento em que entre nós a arte de escrever, cada dia mais se corrompe e se profana, sob o influxo de todos os estrangeirismos e extravagâncias, da grosseria e do calão, a gramática e a clareza, a elegância e a decência da expressão tornaram-se virtudes clandestinas de cultores atrasados, de velhos ritos.
Escrever mal é hoje uma escola. Parece que o desalinho da linguagem, as tropelias das palavras, o desmazelo da forma são hoje atributos do pensamento. Estilo hoje é palavra soez, é truculência da imagem, é obscuridade rebarbativa. A clareza, a simplicidade, são sinais de frivolidade, o brilho do estilo, uma inferioridade de gosto.
A arte é essencialmente expressão, expressão na cor, expressão plástica, expressão musical e não uma autêntica caldeirada literária ié-ié, como por vezes se verifica. Escrever não é amassar e ligar palavras como quem frita batatas. Pode ser-se profundo sem se ser obscuro ou cair em preciosismos de linguagem. Pode ser-se brilhante sem ser exótico; pode ser-se elegante sem ser arrebicado. A prosa pode ser viril sem cheirar a suor, nem ter as unhas sujas.
É sobretudo no trabalho da expressão estética que está a obra de arte e na sua criação o artista que a inspira e molda. E que dizer da mania de banir por completo o uso das maiúsculas? Será que a exigência da igualdade é tal que até no reino das palavras não se toleram diferenciações? A rasoira da igualdade total instalou-se também no mundo das letras?
Há tempos, lemos um artigo de pessoa com responsabilidade, em jornal também com responsabilidade, onde não aparecia um único ponto final nem uma única vírgula. Até a palavra Deus (parece um sacrilégio) estava grafada com minúscula!
Simples extravagância e ânsia incontida de originalidade ou insinuação duma ideia igualitária que domina todos os espíritos e parece ser a única preocupação do nosso tempo? Até para as artes os tempos são difíceis! Os jovens, que têm às suas costas a grande responsabilidade de construir um mundo novo e melhor, parecem deixar-se dominar pela psicose de escaqueirar todas as estruturas vigentes.
Há uma espécie de alergia a tudo o que é sensatez, madureza e apoio aos valores do espírito. E a ingenuidade, a falta de densidade mental nas afirmações e nas atitudes começam a vir ao de cima e a exercer um domínio despótico.
Na música e na literatura os sinais de desorientação e de rebeldia contra regras e cânones são por demais evidentes. E, numa atitude de inconsciência e irresponsabilidade, muitos buscam o subterfúgio do grito desenfreado, do sapateado nervoso e da mímica histérica. A música ficou reduzida a isto. E a prosa fresca e elegante? Tudo parece esboroar-se num mundo às apalpadelas e em busca de qualquer coisa que lhe foge rindo-se dele. Ironia da vida!
Até para as artes os tempos estão difíceis!
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sexta-feira, dezembro 02, 2005
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quarta-feira, novembro 30, 2005
segunda-feira, novembro 28, 2005
República Vodkova
REPÚBLICA VODKOVA
Situação Geográfica:
-Trata-se de uma pequena República Ocidental no Oriente. Facto que se ficou a dever a que os Vodkovos não sabiam ler mapas e faziam-no ao contrário. Localizada mais exactamente a sul da Federação Russa, fazia até há pouco parte deste país. É um pequeno território entre a cordilheira de Merdisstók (a Norte) e o deserto de Massa (a sul) e integra no seu território grande parte do lago Baycair, onde se localizam as plataformas de extracção de areia e gás natural.
-A Norte faz fronteira com a Federação Russa, a sudoeste com o Prakistan e a sudeste com o Kapädonistan, duas repúblicas também recentes.
-Fazem ainda parte do país três ilhas na zona fronteiriça do lago Baycair.
-A Vodkova é essencialmente um país liso excepto a norte onde existe a cordilheira de Merdistók. Sendo um país sem relevo possui características de deserto em 60% do seu território o que não parece ter qualquer relevância.
-A rede hidrográfica é constituída por três cursos de água a que podemos com esforço chamar rios e que alimentam o lago Baycair, sendo que dois deles nascem no próprio país e um na Federação Russa.
-É em Kudur a cidade capital que vive 99% da sua população de meio milhão de habitantes. As outras cidades importantes são: Kuz, Kalina (nas margens do lago), Porcalhitcha (onde se situa o segundo dos dois aeroportos) e Resseaka-Matina. De salientar que nenhuma destas cidades tem mais de duzentos habitantes.
-Apesar de alguns estudiosos atribuírem esta forte concentração populacional ao facto de serem frios os Invernos, a verdade é que num país como este não existem grandes alternativas.
-Os locais de maior densidade populacional são no entanto a antiga “Loja do Povo”, transformada agora em bordél e o Departamento de Licenças de Imigração onde funciona à segunda-feira de manhã a extracção da Lotaria Nacional Vodkovense.
-No norte bem como no Centro e Sul do país predomina a ausência de vegetação o que se deve ao clima desértico a aos ventos que sopram quase sempre apartir do deserto. No resto do país o clima é moderado, sobretudo nos três hotéis e no palácio presidencial.
Rui
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segunda-feira, novembro 28, 2005
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domingo, novembro 27, 2005
Diàlogos
-O Amor é algo que me ergue do chão e me eleva, fazendo-me pairar.
-Não! A isso chama-se avião, helicóptero ou planador. Quem sabe, até mesmo pára-pente, mas Amor não!
-O Amor faz-me perder a respiração e a fala!
-Noop, isso é cansaço, bronquite asmática ou uma severa constipação que te deixe afónico. Mas Amor…? Não me parece!
-O Amor é algo que arde dentro do peito e nos consome, deixando-nos consolados.
-Hmmmm…? Não me parece. Isso é provavelmente uma arritmia ou um enfarte seguido da sensação de alívio por teres ficado vivo… desta vez!
-Amar é como ser levado às estrelas e depois deixado de novo na terra.
-Pois sim…, isso é algum ET que te raptou e te levou para o seu “disco” para te examinar e que farto de ti, te deixou de novo onde te encontrara.
-O Amor muda tudo o que vemos em menos de um segundo.
-Irra! Isso é um controlo remoto e muda apenas os canais de televisão.
-Então o que é o Amor? Vá, diz lá!
-Sei lá o que é isso ou se sequer existe? Mas se existir, eu reconheço-o quando o vir!
Rui
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domingo, novembro 27, 2005
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sexta-feira, novembro 25, 2005
quinta-feira, novembro 24, 2005

Hoje sinto-me cinzento da cor das palavras que aqui escrevo.
-Hoje não terei paciência para telejornais, para o rosário de desgraças mundiais desfiadas entre duas garfadas de jantar aquecido.
-Tenho frio nos dedos e nas teclas e a cabeça dói-me, não me apetece “blogar”.
-Hoje não serei jocoso e nem serei “ácido” como algumas vezes sou; Não me importarei com a crise, não vou ligar “pevas” ao desemprego nem à educação ou à falta dela. Não vou ligar nada a coisa nenhuma.
-Estou cansado, cansado de pensar de ouvir, de falar, de beber e de quase tudo.
-Vou procurar um canto onde me demore a chegar a casa, para ler qualquer coisa que seja, que me restitua a inspiração.
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quinta-feira, novembro 24, 2005
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terça-feira, novembro 22, 2005
STRIPTEASE ME PLEASE
-Digam o que disserem as “mentes abertas”, o strip tease masculino não é nada ou é menos do que nada.
Anda por aí como se fosse uma moda destinada a provar que existem maridos e namorados tolerantes e modernaços ou esposas e namoradas muito descontraídas e moderninhas.
-Não me pareceu nunca, mais do que uma elaborada vingança, exercida em nome da ambição de “direitos iguais” pelas namoradas e mulheres, sobre os homens que perdem tempo a ver mulheres despirem-se. Assim juntam-se em grupos de amigas, colegas de escritório, escola ou despedida de solteira e depois de um jantar bem regado lá vão.
-Para mim aquilo não passa de homens a executarem gestos femininos para tirarem a roupa ao som de música, a imitarem uma arte feminina que não é arte ainda que sejam mulheres a exercê-la. Gestos amaricados e movimentos de dança de quem não sabe dançar e tem o ouvido duro, como os músculos que abana no palco.
-Não fui nunca a um desses acontecimentos, pelo facto simples de se não destinarem a mim nem a exemplares do mesmo sexo que eu e também por achar todo e qualquer espectáculo de striptease uma ridícula perda de tempo e uma triste imitação da realidade. Um ser humano que se expõe por dinheiro e que para disfarçar a vergonha que deveras sente, tenta fazer-se passar por artista.
-Tirar a roupa é e será sempre despir, seja no quarto ou em palco. Em todos os casos a música de fundo não passa de barulho, para acompanhar o bamboleio que disfarça a falta de excitação ou quem sabe, de paixão.
Rui
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terça-feira, novembro 22, 2005
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segunda-feira, novembro 21, 2005
Semelhanças jet-setistas
Transcrevo alguns excertos de um texto de opinião de Mia Couto, retirado do seu livro Pensatempos, sobre o jet-set moçambicano. Qualquer semelhança com o «jet-set português» será… pura coincidência?
“(…) O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça. (…) Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. (…)
O jet-set, como todos sabem, é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais. (…) Aqui seguem algumas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista.
(…) Boas maneiras - não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não se sujeita a condições: telefona e manda. Quando não desmanda.
(…) Cultura - o jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. (…) Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter curriculum vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. (…)
Óculos escuros - essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça (…)
Telemóvel - ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco (…) A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta (…) Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! (…) Em conselho de ministros, na confissão da igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo” in Mia Couto, Pensatempos. Ed. Caminho
Ana
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segunda-feira, novembro 21, 2005



















