sábado, outubro 22, 2005

Cenas de todos os dias...

... num autocarro perto de si...




(retirado de uma publicação da Comissão Europeia intitulada “Racista, eu!?”)

quinta-feira, outubro 20, 2005

Diário de um Amnésico












18 de Outubro

-Acordei mal disposto sobre uma coisa que descobri depois num livro ser o chão, nesse mesmo livro descobri também o que era um livro. Ergui-me devagar apoiando-me numa coisa que há aqui no que penso ser o quarto. Parece uma tábua com quatro patas e tem uns panos grandes em cima.

Acho agora que foi mesmo boa esta ideia de escrever um diário, assim posso ir tomando nota das descobertas que vou fazendo. Hoje por exemplo naquela divisão que suspeito chamar-se cozinha ou autoclismo, toda forrada de quadradinhos brancos, descobri um objecto muito interessante. Trata-se de uma espécie de banco branco com dois objectos metálicos que quando se rodam fazem aparecer o já sei ser água.

Espero recuperar a memória em breve mas não sei sequer o que será isso.


6 de Fevereiro

-Hoje passei a maior parte da manha a aprender como funcionam os dois objectos de metal que ontem descobri. Lembrei-me de colocar por baixo deles aquelas duas pontas que eu tenho na minha parte de cima e a que decidi chamar olhos e quando virava a parte mais rugosa para cima podia levar a agua até ao buraco por onde faço barulhos e era bom. Também me senti bem quando descobri um armário de metal no que convencionei chamar garagem e retirei de lá de dentro pacotes com coisas cheirosas que meti no tal buraco que tenho. Também descobri que a água não cai só dos dois objectos de metal do banco branco, há pouco abri a coisa transparente que dá para o exterior e do sitio que costuma ser azul e hoje estava da cor destas bolinhas que tenho na cara, caia água também. Lavei a cara com essa água pois é mais fácil do que ir à cozinha para fazer o mesmo.


3 de Julho

-Afinal enganei-me, aquilo a que chamava banco não é um banco. Hoje quando me sentei numa outra coisa que tem quatro pernas e uma tábua por cima senti-me tão confortável que aquilo sim, deve ser um banco. Só não entendo porque teria, antes de perder a memória, colocado lá em cima umas rodas de um material que parte ao cair e uns objectos de metal estranhos, brilhantes e pontiagudos. Um deles é concavo, outro é cortante e outro tem três picos.
-Também descobri hoje que tenho um buraco que me não serve para nada. Estava sentado naquela coisa parecida com o que pensava ser um banco e que fica mesmo ao seu lado na cozinha onde sinto um alivio enorme quando me sento, foi então que reparei que abaixo da ponta inferior da minha cara, tenho um buraco …não é bem um buraco porque está fechado mas já teve ter tido uma utilidade qualquer de que me não lembro.


1 de Dezembro

-Continuo a ter esperança de recuperar a memória, há nomes que me saltam à ideia, não sei a que se aplicam mas decidi começar a usa-los.
-Hoje fiquei curioso com um caixa que se prolonga da parede por um fio: a sua frente é de vidro escuro ou pelo menos acho que é vidro aquilo... tem uns botões estranhos num tabuleiro por baixo, todos quadrados e com letras decidi chamar-lhe frigorifico.

-Há muito que não cai água de cima pela abertura para o exterior mas enquanto houver água na alcatifa posso lavar a cara as vezes que queira.



34 de Janeiro

-Descobri na fritadeira outro armário de metal que tem frio dentro e dentro dele, mais coisas para meter no buraco grande do que acho que é a cara, não tenho a certeza mas decidi chamar-lhe assim. O lavatório preto hoje começou a fazer um ruído irritante que só parou quando levantei a parte de cima, mas depois de a colocar no sítio vou a fazer o mesmo barulho decidi deixar as duas partes separadas.

-Tomei banho na panela e depois sentei-me dentro do aquário a descansar as orelhas, tive um dia atarefado a puxar lustro ao canário.


Rui (Com base no Pão com Manteiga-Dezembro-81)

sábado, outubro 15, 2005

Futebol e amor












O mundo é redondo e o futebol é a maior prova disso.

-O futebol é uma repetição de todos os reflexos sociais. Tem regras, restrições, perícias, penalidades, artigos, relevância e impertinência. Mas sobretudo tem o acaso. Tem superstição, religião e paixão…muita paixão. Tem corpo e por tudo isto tem alma.

-O futebol é violento como a vida e tem abusos como ela. Duro como a existência e sóbrio como a maior das bebedeiras.

-É diferente nas semelhanças com a religião e semelhante a ela nas diferenças. Ou se crê ou não, ou se ama ou se odeia; Tudo o resto são excepções raras e tudo é permitido em simultâneo. Nele as crises de fé são rápidas, duram o espaço de uma jornada ou o “defeso” de uma época.

-Ao contrário do que se diz por aí, não se joga pensando, joga-se apenas com a alma e com o corpo todo ainda que não seja permitido, depois pensa-se. Isto é: primeiro chuta-se como e quando se pode na altura e à posteriori explica-se o que se fez, se pode explicar ou inventam-se razões ou então não se explica sequer.

-O futebol não é bonito, é lindo se se gosta dele e se a equipa ganha ou trágico se a equipa perde. Arranca euforias e horrores durante o mesmo minuto. Mata-se por ele (tristemente) e morre-se por ele mas sobretudo sofre-se por ele. É catártico e sublime ou aberrante e desprezível.

-Ninguém gosta de futebol apenas. Futebol não se conversa, discute-se. Escreve-se, descreve-se, analisa-se, vê-se e revê-se vezes sem fim em todos os ângulos inversos e reversos e nunca se apura nada.

-Não é desporto, é tudo para quem tem pouco ou nada e algo mais para quem já tem tudo.

-É belo ouvir de alguém que o detesta e não o entende por opção própria, que deseja que a nossa equipa vença, apenas por nós.

-È uma bela declaração de amor.


Rui

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Sapo explica o "Pântano"










António Guterres explicou à RTP o que quis dizer com a expressão “pântano” que usou quando se demitiu após as anteriores eleições autárquicas. Nessa altura, não soube ou não quis fazê-lo, tendo assim insultado todo o sistema democrático que rege este país, toda a classe politica de que o próprio fazia (e faz ainda) parte, bem como a todos os portugueses, especialmente aqueles que nele haviam depositado a sua confiança através do voto.

A explicação do senhor não chega sequer a possuir qualquer interesse: nem pelo conteúdo, nem pela altura em que é feita e nem sequer pela sua atitude de auto-desculpabilização. Veio apenas colocar de novo em causa todo o sistema de parlamentar tentando demonstrar (ou apontando nesse sentido) que nada funcionaria para o governo após as autárquicas de então por culpa da oposição. Isto, nada mais é, do que colocar em causa a integridade dos partidos e deputados que da Assembleia faziam então parte, insinuando que existiria um total alheamento por parte destes, das responsabilidades governativas e uma atitude de irresponsabilidade nacional grave. No entanto outra coisa, sim seria de estranhar. O senhor em causa, parece ter esquecido que se encontra actualmente a ocupar um cargo internacional, que lhe exige uma superioridade de princípios morais, que sempre almejou e que não tem sabido demonstrar. Esquece por exemplo, que foram os mesmos partidos e a mesma oposição, quem com a consciência nacional que alega não possuírem, o guindou até ao referido cargo; Servindo-lhe de apoio e mesmo de “lobby” internacional para a sua nomeação.

A “explicação” sempre chegou, mas chegou tarde e apenas como uma rude, desfasada e tardia evocação de razões e sobretudo com o inntuito de desculpar o actual governo por não fazer aquilo que ele fez; Para que este não sentisse a obrigação de o copiar nas suas discutíveis atitudes. Não me parece que apesar de tudo o presente governo sinta o desejo ou a necessidade de se demitir; Facto que lamento, embora honestamente pense que não o deveria fazer.

Enfim: o sapo explicou o pântano.


Rui

"Amigos..."

“Amigos são os que não nos deixam viver abaixo do nível dos nossos sonhos, os que precisam que amemos o que eles amam, os que nos zurzem quando erramos para que comecemos a acertar mais depressa, e sobretudo, os que infinitamente nos abraçam por essas noites imensas em que nos sentimos feios, porcos, maus e esquecidos pelo mundo.” Inês Pedrosa, Crónica Feminina. (Ana)

sábado, outubro 08, 2005

É o tempo dos diospiros










É o tempo dos dióspiros. Altura do ano em que os dias se recolhem mais cedo e a noite começa no que foi o fim de tarde. Tempo das folhas iniciarem a sua viagem de queda amarelecida. Tempo do acordar da tristeza e do adormecer da alma; Da espera até ao renascer ou de morte dos sentidos com a luz do dia. Altura dos dias baços e de chãos atapetados de folhas. Tempo da mágoa e do desespero, de fuga e da cruel saudade dos sonhos. É o tempo dos dióspiros.

Rui

quinta-feira, outubro 06, 2005

Os outros


Quem são os outros?
São os teimosos. Os apáticos. Os incompreensivos. Os incompreensíveis. Os agressivos. Os lamechas. Os violentos. Os cobardes. Os ignorantes. Os que não conseguem entender nada. Os que pensam que entendem tudo. Os que pertencem a um clube que joga mal. Os que lutam por um partido que não defende os nossos interesses. Os ateus. Os fanáticos por uma religião que não responde às nossas questões. Os alienados. Os egoístas. Os defensores de causas perdidas. Os que amam demais. Os que não sabem amar. Os que se auto-elogiam. Os que nos cansam por serem derrotistas ou derrotados. Os que gostam de música sem qualidade. Os melómanos. Os que se deliciam com literatura light. Os que lêem livros indecifráveis. Os pessimistas. Os sonhadores. Os pedantes. Os incompetentes. Os que só vivem para o trabalho. Os que trabalham o mínimo possível. Os autoritários. Os submissos. Os maníacos das novas tecnologias. Os desajustados num mundo em franco progresso tecnológico. Os que fogem ao fisco. Os que são excessivamente cumpridores. Os condutores perigosos. Os que atrapalham o trânsito. Os que nunca se interrogam. Os que têm sempre dúvidas. Os que têm dívidas. Os que não sabem educar os filhos. Os que não querem ser pais. Os vegetarianos. Os defensores de alimentação biológica. Os amantes do fast-food. Os avessos a pratos exóticos. Os que só pensam em trocar de carro. Os que demoram o triplo do tempo a chegar ao emprego de autocarro. Os cravas. Os demasiado liberais. Os excessivamente conservadores. Os que têm o mesmo estilo a vida toda. Os que não conseguem decidir que estilo adoptar. Os maníacos do desporto. Os sedentários que não saem do sofá. Os amantes da TV e das pantufas enxadrezadas. Os faladores incansáveis. Os silenciosos incorrigíveis. Os contadores compulsivos de anedotas. Os que não têm sentido de humor. Os imigrantes. Os xenófobos. Os corruptos. Os que conseguem o emprego por cunha. Os empresários. Os desempregados. Os que nos bajulam. Os que não nos admiram.

Quem são os outros?
São os culpados por tudo o que de negativo nos acontece ou acontece à nossa volta. Por culpa deles há miséria, há violência, há acidentes na estrada e no trabalho, há desemprego e recessão económica.

Quem são os outros?
São os que estão errados porque, naturalmente, nós temos sempre razão.

(Ana)

Máquinas com alma


Não tenho conhecimento de alguém que não desespere quando, ao ligar para um qualquer serviço, é atendido pela robótica voz de uma maquineta completamente indiferente à impaciência de quem a ouve enquanto aguarda todas as instruções.
Em França, a France Telecom trabalha em conjunto com o Institut de la communication parlée de Grenoble para tentar criar uma máquina com alma. Transcrevo parte de um artigo que revela os objectivos do trabalho em curso.
“Premier objectif : arriver à extraire les paramètres d’une voix qui caractérisent l’état émotionnel de l’individu qui appelle. Pour cela, ils sont en train d’analyser en laboratoire par traitement du signal sonore le contenu d’un discours, en clair, les mots employés, le rythme et les variations de fréquences de voix. Deuxième objectif : en fonction de l’état émotionnel perçu, ils essaient des programmer un logiciel qui synthétise des messages avec une voix artificielle dont les phrases et le ton de réponse sont en adéquation avec l’humeur du client (…).Ainsi, quand vous téléphonerez pour un motif urgent et que vous serez particulièrement énervé, non seulement le répondeur adoptera une voix rassurante chargée de vous calmer mais en plus, votre appel sera redirigé en priorité vers un opérateur-robot, prévenu par avance que vous êtes un client à traiter rapidement et avec des pincettes » Science&Vie, nº232, p.15.
Ainda de acordo com a mesma fonte os primeiros « répondeurs compréhensifs » poderão existir dentro de três anos e os modelos expressivos interactivos na próxima década. Até lá só nos resta aguardar com a calma e paciência possíveis.

(Ana)

sexta-feira, setembro 30, 2005








Por vezes sinto-me bondoso apenas por dizer bom dia como resposta, por partilhar um guarda-chuva sob a tempestade. Por comprar chá ou pegas de lã que não preciso, para ajudar a encobrir o acto de mendigar vendendo.

A culpa não é de ninguém, há desigualdade social, miséria, instituições e governos.
Há desculpas para virar a cara e esconder o olhar.


Olho a carteira só tenho cinco euros, não tenho ilusões!

Rui

quinta-feira, setembro 29, 2005

T-SHITS IN





Confesso, podia ter-me dado para pior....

segunda-feira, setembro 26, 2005

xenófobia ou...


Ele há dias assim…

Como de costume, ou tem-se tornado costume em dias assim, em que a “neura” vai alta, Não me apetecia jantar em casa.

Escolhi, já bem tarde, um restaurante grego cujo dono é cipriota e onde tinha ido uma outra vez num dia tempestuoso como o de hoje. O empregada brasileira, que entendi chamar-se Alliana, por ser o que tinha num enorme cartão sujo que lhe pendia do impecavelmente negro avental, entregou-me a lista e cumprimentou-me sorridente e simpática.

Mesmo em frente a mim, jantava animadamente um casal ucraniano ao que entendi, cujo marido pelo que a mulher lhe chamava a cada passo, se chamaria algo como Yulin ou Yurin.

Enquanto tentava recordar como se chamavam as costeletinhas de borrego que comera da primeira vez, dei por mim a recordar a conversa que tivera de tarde com uma rapariga checa e com o seu namorado irlandês que cá está para iniciar um ano de Erasmus e que me confessou adorar a comida dos nossos restaurantes chineses.

Jantei na paz do Senhor, mal acompanhado por mim e pelas minhas “tonterias” quando já no final recebi um telefonema de um casal de amigos italianos, para lá ir a casa tomar um café. Recusei polidamente e adiei para outro dia em que não me lembrasse de nenhuma desculpa ou em que estivesse mais sociável.

Lembro-me de ter vindo para casa num autocarro cheio de cabo-verdianos que regressavam de uma festa de musica angolana, a decorrer não sei onde e de pensar que afinal se nós somos assim tão xenófobos como muitas vezes nos acusam seria excelente que toda a gente em todo o mundo fosse apenas tão xenófobo como nós somos…ou talvez não…


Rui

Uffffaaaa..!





Já não sou capaz de suportar os detentores da verdade, os seus donos e senhores, os que falam como se tivessem toda a razão o tempo todo. Os que apontam o indicador e disparam com voz irritada em todas as direcções, criticas e censuras como se fossem santos num infernal local criado para demónios.

Os profetas da liberdade e direitos sem obrigações, sem deveres e sem consequências, por ser moda. Os que defendem os direitos de quem lhes agrada e esquecem os direitos de todos os outros. Os teóricos das despenalizações de tudo “porque é assim que é a liberdade, porquê sim”!

Os que buscam em cada esquina das crises uma causa para substituir a anterior e para mobilizar os que a troco de uma “passeata” estarão sempre mobilizáveis. Os que para não se afogarem em depressões do seu próprio tédio são anti-tudo e pró apenas o que lhes interessa. Os paladinos de mil causas oportunistas, por não terem causa nenhuma excepto a sua própria causa. Os sempre presentes frente às câmaras das televisões a discorrerem acerca da solidariedade que não praticam e do povo que usam para os seus fins.

Os radicais e exacerbados militantes do anti-radicalismo.

Os vanguardistas “subsidio-dependentes” que nunca sobreviverão sem as migalhas estatais, que nada produzem e que se insurgem sempre contra tudo sabendo que a polémica é um bom trampolim para a discussão e esta para a fama.

Os críticos sem razões e sem cérebro, descabidos no discurso, exagerados nos argumentos, pretensiosos na cultura, repetitivos nos ataques com que descriminam e insultam, quando os que tem diferentes opiniões se manifestam. Os que em nome de uma arrogância idealista criticam, insultam e refutam quem não pense do mesmo modo.

Rui

domingo, setembro 25, 2005

sábado, setembro 24, 2005

New age








Antigamente a só os “tolinhos” falavam sozinhos pela rua ou no caso de serem bastante endinheirados, os excêntricos. Hoje toda a gente quer na rua quer no automóvel usa uma espécie de antena que lhe sai de uma das orelhas e mexe os lábios abrindo os braços em gestos largos. Várias vezes imagino que cantem ao som de uma música qualquer que cá fora se não ouve.

Hoje fazem-se férias com crédito que apenas termina depois de se contrair novo crédito para as férias seguintes. Paga-se a casa em trinta ou mais anos pagando duas ou três casas. Levam-se os meninos à escola ou ao colégio para que não andem de transportes públicos e pretende-se que lá fiquem todo o tempo possível por em casa serem empecilhos à vida organizada dos pais. É necessário ter telemóvel de ultima geração, ou dois, ou três. O carro está a ser pago, a equitação das crianças e o ténis e o piano também. Tudo é administrado com um esplendor falso e corrente. O cartão de crédito, esse, vai sendo administrado num cortejo de meses e prestações semelhante ao desfile de um funeral até ao local de definitivo repouso.

Mecanissices






Sempre me perguntei o porquê de em quase todas as oficinas mecânicas existirem em razoável profusão calendários de mulheres nuas. Elas são loiras, morenas, ruivas da década de sessenta e setenta. Muitas são copias mal urdidas da miss Agosto da Playboy e de outros meses, a encimarem uma espécie de anúncios a casas de peças de escape e outras partes de “mecanicisses” em ninguém nunca repara.. Aliás a quantidade é tal que penso que ninguém repara sequer nas donzelas semi-nuas em poses vulgares e sempre iguais a que só varia o cenário por detrás.

Será que se pretende um efeito decorativo para esconder a sujidade de óleo e/ou tinta? Ou é suposto serem homens, os clientes exclusivos das oficinas e se pretende insinuar algo deste género: “Nós somos melhores do que a oficina ao fundo da rua porque os nossos calendários são melhores”?

Já pensei se os mecânicos e afins, todos os dias fariam uma pausa quando já muito cansados da sua labuta, para se reunirem em frente aos calendários ou cada um frente ao seu e por entre duas goladas de cerveja aberta contra a bancada de trabalho, comentarem a focagem da foto, a imaginação do cenário, a qualidade rara dos têxteis com que destapam as meninas, ou a excelente forma física delas. Mas francamente não me parece.

terça-feira, setembro 20, 2005

E... dade?













Tenho 41 anos. Não sou nem velho nem novo sou ambos ao mesmo tempo e regra geral sou novo demais e demasiado velho quando quero ser o contrário. Quarenta e um anos é diferente de ter quarenta ou quarenta e dois, embora seja sempre eu independentemente da idade que tiver. Mas por vezes não sei bem o que é exactamente isso de ser eu.

Envelhecer é das poucas certezas que possuo, de todas as realidades é das mais democráticas e inexoráveis.

Antigamente pensava que quando atingisse esta zona da vida em que estou seria mais capaz. Mais envolvido na vida, mais sabedor e experiente. Mas tudo o que até agora aprendi resume-se a saber que não aprendi nem o suficiente nem aquilo que queria aprender e que está muito bem assim.

A vida não é um puzzle à espera de ser construído peça a peça mas sim as cores com que o puzzle se pinta. Não será um puzzle coloridíssimo mas é colorido e vivo; Não é preciso nem exacto mas é perfeito.

Há na vida pelo menos uma justeza, a que se revela naqueles de quem gostamos, nos momentos felizes, na beleza e na passagem das estações.


Gosto da vida mas não me entendam erradamente. O mundo está cheio de desgraças e de lágrimas e o meu mundo também. Limito-me a acreditar apenas que algo melhor há-de existir um dia e que me irá surpreender como antes já aconteceu.

segunda-feira, setembro 19, 2005

"Chatos" e fininhos








N
ão há nada mais “chato” do que um “chato”.

Um “chato”, pode muito bem tornar-se num autentico pesadelo para qualquer pessoa. Pode aborrecer-nos de dia, acabar com a pouca paciência que ainda nos resta ao fim de dia, ou estragar-nos as noites apenas pelo facto simples de existir e de ser “chato”. Existem variados estilos de chato: o “tolo da aldeia”, o perguntador obsessivo, o falador exagerado, o crava-tudo, o lambe-botas, o “chato” maníaco da alimentação racional, do anti-tabagismo, da legalidade exasperante, dos telemóveis, da vida dos outros, das promoções e dos descontos, das telenovelas e concursos, o chato do Jet-set a que chamam “aborrecido”, enfim, uma variedade bastante variada deles. Mas sobretudo há um género que me exaspera: O “Chato por falta de sentido de humor”. Confesso que consegue quase sempre levar-me às fronteiras da perda de paciência. Não entende anedotas nem sequer piadas subtis ou trocadilhos, não compreende as observações oportunas e com graça que lhe fazem ou toma-as literalmente, sem sequer um copinho de agua e ofende-se. Reage mal às brincadeiras e… pior, normalmente acha-se engraçado e bem disposto. A falta de humor é realmente uma coisa muito “chata” de gente muito “chata”.

Existem e andam por aí à espera de uma ocasião para nos dar cabo do juízo e nos fazer exasperar ou simplesmente fugir deles.

Pessoalmente odeio “chatos” e tremo de cada vez que penso que posso ser eu um, em circunstancias que escapem ao meu controle ou em que inadvertidamente me torne num. Por isso muitas vezes evito falar acerca de assuntos que para mim tem interesse mas que para outros não passam de vagas ideias. Evito dar continuidade a conversas que não me interessem e evito sobretudo a companhia de “chatos” por ter sempre desconfiado que a “chateza” possa ser contagiosa como uma espécie de sarampo da mente. No entanto, já me tem acontecido ser apanhado com a guarda em baixo e deixar que um chato se torne meu amigo. Depois disso torna-se muito difícil achá-lo “chato” do modo que antes o achava e acabo por vezes até por gostar das pequenas coisas que me exasperam mas que nele consigo, se não aceitar, pelo menos entender como parte dele. Nessas alturas reparo, sempre como uma novidade, que os “chatos” não sabem que o são. Vivem como se fossem pessoas normais, vão a jantares, casam, tem amigos e filhos como se não fossem os “chatos” que são. Alguns cometem mesmo o “crime” de serem excelentes pessoas nos intervalos das sua “chateza”, são realmente preocupados com os conhecidos e procuram ajudar sempre que podem, muitas vezes sem que lhes peçam e algumas vezes atrapalhando mais do que ajudam. Mas não será isso que faz deles más pessoas, apenas pessoas “chatas”.

Espero não ter sido “chato”, mas não escrevo mais por recear que se torne uma chatice.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Na era das TIC

Não fui das primeiras pessoas a ter telemóvel. Quase posso dizer que resolvi render-me aos seus encantos por necessidade. Nos primeiros meses não o usava. Não dei o meu número a ninguém. Escondia-o na mala apesar de ser enorme. Não vou dizer que parecia um telecomando. Qualquer telecomando por grande que seja teria uma tamanho bastante razoável se comparado com aquela embalagem de quilo de açúcar negro que eu transportava discretamente comigo. Transportava-o quase sempre para uma eventual situação de necessidade extrema. Essa situação ocorreu. E qualquer pessoa sensata me diria que tinha feito bem em adquirir o telemóvel - “vês como faz falta?”. Pois fez, mas nesse dia o meu querido telemóvel estava sem bateria e foi um condutor que passou na estrada e que não tinha telemóvel que me levou até ao telefone mais próximo.
Também não fui das primeiras pessoas a idolatrar os computadores. Aprendi, enquanto estudante, qualquer coisa que nunca usei e foi bem mais tarde que, errando muitas vezes e perdendo alguns trabalhos, aprendi o que hoje utilizo e que também não faz de mim uma conhecedora desta máquina.
Quanto à Internet… bem, não poderia ser diferente e também não me despertou o interesse muito cedo. Haverá certamente pela rede muitos endereços de correio electrónico que eu tentei criar, ou terei criado, mas aos quais nunca soube aceder e quando comecei a fazer o que considero essencial com relativa facilidade não tinha ideia do que tinha feito anteriormente.
Passei cinco dias sem acesso à Internet e com o telemóvel quase sem rede, conseguindo falar menos de um minuto de cada vez, e durante esses dias senti-me completamente isolada do mundo. Neste momento não entendo como sobrevivi tantos anos sem estas máquinas. Não falo, naturalmente, dos anos que antecederam a sua invenção mas como é que eu não fui das primeiras pessoas a interessar-me por estas maquinetas milagrosas logo após a sua comercialização?!? A natureza humana é mesmo misteriosa.Ontem passei em frente a um netcafé e parei um bocado a olhar: 15 minutos 0,50€, 30 minutos 1€ e 1 hora 2€. Ainda pensei entrar mas depois decidi “não é nada disto que eu quero”. Eu não quero poder usar a Internet 15 minutos ou uma hora. Nem sequer duas. Eu quero usar por tempo indeterminado. Ver e actualizar o correio com calma. Visitar os sites habituais. Perder-me a encontrar outros que não conheço. Depois de cinco dias sem ter um vislumbre cibernáutico entrar num netcafé e comprar uma hora far-me-ia sentir pior do que passar mais cinco dias sem qualquer contacto com o mundo virtual. Será um vício? Talvez. Mas se for quero-o por inteiro e recuso-me a administrá-lo em pequenas doses. (Ana)

terça-feira, setembro 13, 2005








Eu acredito em Deus. Eu acredito na existência de algo que desconheço, algo inquestionável e absoluto mas tenho a convicção profunda da sua existência. Acredito num Deus único independentemente do nome que Lhe dão ou dos ritos que Lhe dediquem. Tenho os meus ritos e respeito os dos outros. Mas não tenho o “meu” Deus, tenho Deus apenas.
Acredito no Deus bom, que nos deu o livre arbítrio, e que zela apenas superiormente por nós, como um pai compreensivo que não interfere na vida dos seus filhos a quem compreende e perdoa.

Costumo dizer meio a brincar, que todas as religiões são boas se respeitarem a vida no sentido mais lato, as outras religiões e até quem não crê em nada.

Esse Deus em que creio acreditar, parece ter nascido comigo em vez de me ter sido ensinado, parece existir em mim antes ainda de eu existir.
Quando leio ou releio a Bíblia, (e poucas vezes o faço), leio-a como se lesse um livro normal. Um livro de princípios e não de obrigatoriedades. Um livro onde se mistura história, crença, ensinamentos morais e lendas e não como algo estrito que se deva seguir obrigatória, exacta e cegamente. E no entanto sempre me fascinou nas suas descrições, nas suas histórias, nos seus relatos e ensinamentos.
Rezo tal como aprendi a fazer mas como também me ensinaram, falo com Deus como se falasse com um bom amigo, com intimidade e confiança. Sempre que alguém me ensinou a fazê-lo de outro modo, respeitei a sua crença e rezei do modo como então me ensinaram. Já rezei em vários templos de diferentes ritos, praticas e religiões e falei sempre com o mesmo Deus por palavras cânticos ou rituais diferentes. Respeito todos símbolos, e todos aqueles que os não usam mas que os respeitam. Acredito em Jesus e em outros profetas como acreditam aqueles que apenas crêem nos seus profetas.

O meu Deus não tem raça, credo cor ou convicção. Não tem nacionalidade ou território. Não castiga, não recompensa mas não exclui. Estará dentro de cada um como O sinto dentro de mim, como sinto os ensinamentos e convicções que possuo em mim. Acompanhando-me sem nunca me empurrar mas também não me amparando as quedas que eu escolhi cair. Ajuda-me a procurar e respeitar a verdade e os valores em que acredito e por isso, a respeitar os valores dos outros ou a buscar pontes que nos unam e não vales que nos distanciem.

No entanto e apesar de tudo, não respeito os que não respeitam os outros, os que não crendo ou crendo de modo diferente tentam converter quem não pensa do seu modo ou insultam quem acredite em algo diferente de si. Aqueles que dotados do que julgam ser as únicas certezas, ofendem e maltratam os que não pensam do mesma maneira. Os que berram em nome da tolerância e insultam de modo intolerante.

"Não sei o que me enoja mais: se a beatice tonta da direita que aproveita a religião para fins eleitorais se a demagogia bacoca duma esquerda que trata aos católicos como anormais profundos. "


( Desconheço o autor. A frase chegou-me assim )

Rui

segunda-feira, setembro 12, 2005

Tricios






Gosto de café que me faz mal. Gosto de tomar café, sobretudo se acompanhado por um cigarro negro saboroso e gosto dos cigarros que fumo. Gosto até, imagine-se, de algum álcool, depois do café e do cigarro, durante o cigarro ou durante outro cigarro.

Sou realista à luz da razão vigente: autodestruo-me e sei disso, mas sabe-me bem! Enche-me a vida e aqueles momentos vazios em que não penso em coisa alguma, excepto nos sabores. Olhos fechados, abertos para dentro. Entre sedosas nuvens de bem estar que me separam da vida real nesses momentos.

Nessas alturas, não busco, não justifico, não exploro os pensamentos. Não autopsio o que sinto ou sente alguém ou as razões. Não tenho nem ninguém tem, lógicas ou atitudes, actos nem emoções. Não existe absurdo e penso que talvez nem exista eu.

Rui